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Gaspar fala sobre demissão na Globo: “Triste perder tudo isso”

Jornalista estava há 39 anos na emissora

Thamirys Andrade - 11/10/2021 10h02 | atualizado em 11/10/2021 10h30

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Alberto Gaspar fez texto de despedida aos colegas após saída da Globo Foto: Reprodução

Dispensado após 39 anos de serviços prestados na Rede Globo, o jornalista Alberto Gaspar fez um texto de despedida aos colegas de trabalho e relatou como lidou com a notícia. No texto, publicado pelo colunista Flavio Ricco, do portal R7, Gaspar frisou sua paixão pelo jornalismo e pela sua equipe.

– Claro que é triste perder tudo isso, de repente. E não só para mim, pelas manifestações de carinho e de certa perplexidade que tenho recebido. Eu só tinha sido dispensado uma vez na vida, numa escolinha de inglês onde fui dar aula, aos 18 anos, e faltei duas vezes. Morava longe. Duas alunas continuaram tendo aula particular comigo. Em todos os meus outros empregos, a ruptura partiu de mim, sempre por não estar feliz com o que fazia. Nunca foi o caso na Globo – declarou ele.

O veterano falou sobre sua trajetória na emissora e sobre como teve de se adaptar às mudanças da era digital, especialmente em tempos de pandemia.

– A era digital trouxe muitas mudanças, e muito rápidas, na TV e na mídia de forma geral; [mudanças] que a pandemia só acelerou. Foi engraçado, fazendo matérias em casa durante um ano e meio, ouvir certos elogios de colegas jovens que recebiam meu material, surpresos com o desempenho do veterano. “Como você se adaptou bem, faz bem.” Aí eu respondia: “Experiência é tudo.” Trabalhei nas ruas e bastante, em casa também, [e] no exterior, onde representei orgulhosamente a TV Globo por quatro anos. Adorei voltar ao Brasil e à redação de São Paulo, em 2009. E também no fim da longa quarentena, agora. Até postei no Facebook. Pena que a volta tenha durado tão pouco

O jornalista afirmou que pretende continuar investindo em seu ofício.

– Pretendo continuar fazendo o que gosto, e há várias maneiras para [fazer] isso. Só não topo qualquer negócio, no mau sentido da expressão. Isso quem me conhece já sabe. Tudo pode mudar. A ética da profissão que me deu tanto na vida não – acrescentou.

LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA:
Os colegas vão me desculpar a indelicadeza de não atender, e logo a imprensa. O acontecimento do dia me tomou tempo, e eu ainda tinha um compromisso familiar inadiável. E ainda precisava escrever algo que me agradasse. Vicio profissional, né? Já postei no Facebook e encaminho para vocês. Com carinho e respeito. Acho que responde às perguntas que me encaminharam.

Eu sempre fui conhecido por ser um repórter capaz de resolver as matérias rapidamente. E pela minha trajetória, com certa qualidade, eu suponho. “O Gaspar entrega”. Ou “é solerte”, como dizia uma velha amiga que ingressou na Globo junto comigo. Mas escrever uma despedida não está sendo fácil.

Bora tentar. Desta vez o compromisso é comigo mesmo. E seguindo o que me ensinaram na USP e na Globo, [devo] escolher o essencial; selecionar o realmente importante é básico na profissão.

Eu nunca recebi um elogio de chefes, colegas ou de qualquer outra pessoa, sem responder: equipe é tudo. Principalmente neste negócio onde eu me meti há 39 anos. Quem me conhece sabe o valor que eu sempre dei a isso: à minha equipe, na rua; à minha turma, na redação; à minha tribo.

Claro que é triste perder tudo isso, de repente. E não só pra mim, pelas manifestações de carinho e de certa perplexidade que tenho recebido. Eu só tinha sido dispensado uma vez, na vida, numa escolinha de inglês onde fui dar aula, aos 18 anos, e faltei duas vezes. Morava longe. Duas alunas continuaram tendo aula particular comigo. Em todos os meus outros empregos, a ruptura partiu de mim, sempre por não estar feliz com o que fazia. Nunca foi o caso na Globo.

Vivi a maior parte da minha vida, nela fazendo exatamente o que eu aprendi a amar: a rua, a roça, a floresta; e as pessoas pelo caminho; as histórias, as agruras e as alegrias delas. Um dia um célebre repórter da casa me disse: “Você é o melhor entrevistador da TV brasileira.” Fiquei até besta. Tipo uma medalha, mesmo que exagerada.

Outra marca registrada sempre foi saber onde uma equipe de reportagem podia se alimentar, decente e rapidamente, pra não atrasar o serviço. Na minha São Paulo ou em qualquer outro lugar por onde “reportejei”, diziam que eu deveria publicar um guia, depois abrir um site. Sempre preferi responder pessoalmente aos famintos telefonemas e mensagens dos amigos. [É] Divertido ligar o GPS mental. Mais recentemente, eu brincava que pensava em me transformar num aplicativo. Olha… É uma ideia.

E chegamos ao ponto. A era digital trouxe muitas mudanças, e muito rápidas, na TV e na mídia de forma geral; [o] que a pandemia só acelerou. Foi engraçado, fazendo matérias em casa durante um ano e meio, ouvir certos elogios de colegas jovens, que recebiam meu material, surpresos com o desempenho do veterano. “Como você se adaptou bem, faz bem.” Aí eu respondia: “Experiência é tudo.” Trabalhei nas ruas e bastante, em casa também, [e] no exterior, onde representei orgulhosamente a TV Globo, por quatro anos. Adorei voltar ao Brasil e à redação de São Paulo, em 2009. E também no fim da longa quarentena, agora. Até postei no Facebook. Pena que a volta tenha durado tão pouco.

Pretendo continuar fazendo o que gosto, e há várias maneiras para isso. Só não topo qualquer negócio, no mau sentido da expressão. Isso quem me conhece já sabe. Tudo pode mudar. A ética da profissão que me deu tanto na vida não.

Em tempo: não declinei o nome das pessoas citadas só pra não cometer injustiças com o número enorme de amigos que eu fiz, em todas áreas da Globo. E a quem agradeço imensamente. Muito mais do que experiência, e até equipe de trabalho, amigos é que são tudo.

Como sempre, tamo junto.

PS: Só posso abrir exceção para minha tia Hortência, irmã do meu pai, que eu elegi, lá atrás, para ser minha telespectadora padrão, que eu gostaria de atrair, agradar, atingir, servir. Era costureira aposentada, das melhores. Certo dia, acolheu uma ensopada equipe de reportagem, no meu Ipiranga, com toalhas, café quentinho e bolo de chocolate na boca do forno.

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