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O ato de ouvir pode salvar uma pessoa do suicídio

Especialistas explicam como ter alguém para ouvir desabafos pode fazer com que uma pessoa desista de se suicidar

Virgínia Martin - 03/09/2019 17h54 | atualizado em 04/09/2019 13h51

Setembro começa e com o mês chega a campanha Setembro Amarelo. O brasileiro fica mais atento e compassivo com relação ao tema e aos riscos de tentativas e da concretização de suicídio entre a população. Afinal, casos e mais casos vão sendo divulgados na mídia e ainda atormentam as famílias que passam por este drama. Os dados não param de crescer. No mundo, a cada 40 segundos alguém comete suicídio. É a informação da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o Ministério da Saúde registra que, entre os anos de 2000 e 2016, as taxas de suicídio tiveram um aumento de 73%.

Nesta evolução de números, o suicídio foi categorizado como um problema de saúde pública. Entidades públicas, privadas, religiosas e sociais buscam combater esta epidemia e se envolvem de forma crescente com o Setembro Amarelo. Ações por todo o país chamam atenção para a temática e para seus desdobramentos. Tais iniciativas demonstram que o Brasil vem montando uma extensa rede de ajuda com especialistas disponíveis para ouvir, conversar e impedir que uma pessoa tire a própria vida.

Em 2020, mais de 50% da população mundial irá tirar a própria vida, serão 1,5 milhão de pessoas morrendo por suicídio no período de 1 ano

Para o psiquiatra Olavo de Campos Quinto Junior, muitas pessoas ficam suicidas a partir do isolamento, pela falta de escuta e de apoio. Ele revela que mantém seu celular ligado por 24 horas ininterruptamente, a fim de atender em casos de emergência. Especialista em Transtorno Bipolar, doença mais associada, na Psiquiatria, ao suicídio, ele destaca que pessoas criativas, notórias, escritores, cantores, atores, corredores de Fórmula 1 são exemplos de gente que está no espectro da bipolaridade. Olavo, que tem formação especializada no Estados Unidos e foi professor de Psiquiatria Clínica na Universidade da Califórnia, afirma que canais de escuta são muito importantes e que é fundamental ouvir quem precisa.

– É bom também lembrar que o alcoolismo torna as ideações suicidas mais fortes. Você fica mais impulsivo ainda. Os que executam as ideações e os planos de suicídio estão impulsivos. Quase sempre é verificado que o ato final de impulsividade é o consumo do álcool.

Isolar-se no próprio sofrimento é permitir que ele destrua seu interior (Frida Khalo)

Em 2016, o psiquiatra fez parte de um grupo internacional de prevenção ao suicídio, com ênfase em transtorno bipolar. Ele explica que o cérebro funciona a partir de químicas cerebrais. Existem ações elétricas e químicas e comunicações de neurônios e de circuitos que são feitas a partir da química. Por exemplo, quando uma pessoa está com ideação suicida e encontra alguém em quem confia, que pode ouvi-la, esta ação altera a química cerebral.

– O cérebro só fala uma língua, que é a química. Isso não significa que tudo se resolve com medicamento. Assistir um bom filme no cinema, fazer esporte, estar no peso adequado, uma boa terapia… tudo isso altera a química cerebral.

Sobre sofrimento e exaustão emocional que podem disparar um gatilho para o suicídio, Jane Célia Rodrigues, psicóloga e psicopedagoga, esclarece que quando alguém sofre de sobrecarga emocional, este acúmulo não acontece de um dia para o outro. Jane Célia tem um trabalho de apoio intitulado Quem Cuida, Ouve e Escuta.

– Acumula-se por muito tempo, até que chega o momento em que simplesmente “explodimos” por não conseguirmos mais lidar com tantas coisas guardadas em nosso coração. É preciso procurar ajuda urgente.

Tecnologia a favor da vida

De acordo com o Centro de Valorização da Vida, 90% dos suicídios podem ser prevenidos. A partir desta perspectiva, foi criada uma inovação significativa no investimento a favor da vida. Trata-se do aplicativo de prevenção ao suicídio: o “Safe Tears” (Lágrimas Seguras), desenvolvido por alunos do Instituto Federal (IFSC) de Xanxerê (SC). O grupo esteve na concorrência do Technovation Challenge, competição que acontece na sede da Oracle, na Califórnia (EUA). As alunas Ana Júlia Giacomeli, Anna Carolina Ferronato da Silva, Clara Noemi Pithon da Silva, Emanuela Maraskin e Jhuly Kefny da Silva Carvalho desenvolveram uma tecnologia, ainda experimental, que tem como funcionalidade apontar o estágio de tristeza ou de depressão de uma pessoa.

O aplicativo acompanha o estado emocional do usuário e utiliza a figura de um copo para esta medição. Cada comentário depressivo representa uma lágrima que vai enchendo um copo virtual. Quando alcança um nível crítico de lágrimas no copo, o aplicativo dispara mensagens de apoio, alertas e sugestões de apoio profissional. Em Santa Catarina, nos últimos 20 anos, o número de suicídios alcançou a marca de 11.6212, dados informados pelo Sistema de Informações sobre a Mortalidade, do Ministério da Saúde.

O número 188 é a principal via de acesso para pedidos de socorro. Com serviço totalmente gratuito e disponível para atendimento por todo o Brasil, o trabalho é coordenado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), reconhecido como Utilidade Pública Federal desde a década de 70 e idealizador do Setembro Amarelo. Na campanha deste ano, o CVV chegou à marca de 110 postos de atendimento em todo o país com mais de 3.000 voluntários em atuação. Para reforçar uma mobilização nacional, criou uma série de vídeos que esclarece a respeito de todos os aspectos que envolvem o suicídio.

Quando uma pessoa diz que quer morrer, não significa que ela queira se matar. É o que afirma a psicanalista Cristiane Medina, graduanda em Filosofia. Segundo sua avaliação, tal declaração pode significar “eu não quero mais viver esta vida que estou vivendo agora”. É o método Escuta que gera resultados positivos no combate de ideias suicidas. Por isso, uma variedade de instituições tem trabalhado com este modelo para combater o suicídio. Cristiane reforça que é por meio do método Escuta que o apetite pela morte dá lugar ao desejo de saber.

– A Psicanálise convida o indivíduo a falar, por acreditar que a pessoa tem três opções: ou fala ou adoece ou se mata. Falar das angústias e daquilo que ninguém gostaria de ouvir faz com que a pessoa se depare com aquilo que mais a impacta: a morte, que ela considera a única alternativa para resolver o seu sofrimento. Convidar a pessoa a falar da morte, é convocá-la a falar da vida.

Pedir ajuda e desabafar não é sinal de fraqueza, alerta o serviço da CVV, que explica que as pessoas que ligam não precisam ser identificadas pelos atendentes voluntários. Entre os desafios para que alguém solicite apoio está a chamada masculinidade tóxica. Representa o paradigma de que homens não podem pedir ajuda e não podem demonstrar que podem falhar, principalmente dentro de uma sociedade que tem falta de esclarecimento e excesso de preconceito.

Mutirão de ações

Entre uma infinidades de campanhas espalhadas pelo território nacional, no Rio de Janeiro está o projeto Amparo Pleno em Cristo, lançado recentemente pela Convenção Batista Carioca (CBC). A ação está sendo feita durante os 30 dias de setembro com a missão de prevenir o suicídio e compartilhar conceitos de valorização da vida a partir da ótica cristã. Por meio de uma linha telefônica solidária, pessoas poderão conversar com voluntários sobre problemas pelos quais estejam passando e, dessa maneira, serem apoiados emocional e espiritualmente. Trata-se de um atendimento primário e emergencial, mas que pode salvar uma vida. O atendimento é feito via (21) 2035-3487.

Na capital do país, onde fervilha a política, a Secretaria de Saúde informou que 78 pessoas se suicidaram desde janeiro até agosto deste ano, no Distrito Federal. A preocupação aumenta e impulsiona maior envolvimento do público com movimentos programados. No dia 10 de setembro, mudas de árvores serão plantadas no Parque da Cidade, em homenagem às vítimas de suicídio. Em 15 de setembro, o projeto Pedal pela Vida vai reunir ciclistas e 920 balões serão soltos para o céu, em homenagem às vítimas do suicídio.

O 188 funciona para atendimento em qualquer parte do país

No estado de Mato Grosso, a Secretaria de Segurança Pública aponta 107 casos de suicídio de janeiro a maio deste ano. A campanha também tem iniciativas em vários segmentos da sociedade. Em Cuiabá, no próximo dia 5, será realizado o II Encontro Intersetorial sobre Prevenção ao Suicídio, na UNIC Beira Rio. No dia 10, o CVV irá ministrar uma palestra no Pronto Socorro da cidade. E todas as atividades são promovidas pela Prefeitura.

A PUC do Rio de Janeiro prepara a terceira edição do evento Setembro Amarelo com debate entre profissionais envolvidos com a prevenção, intervenção e posvenção do suicídio. O evento acontece no dia 19 de setembro e pretende dar visibilidade ao tema e promover um debate centrado na ética do cuidado. Na cidade, principais monumentos costumam ser iluminados com a cor amarela, como o Cristo Redentor.

Em São Paulo, também no dia 10 de setembro, um caminho em forma de labirinto com dois mil girassóis, espalhados em 120 metros quadrados, será montado no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo. O percurso no labirinto é uma forma de explicar a jornada do paciente com depressão, desde o diagnóstico, o tratamento, até os desafios com o preconceito ou a sensação de inadequação. O labirinto estará aberto das 9h às 18h, até o dia 14.

 

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