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Fabiana Karla: “Espero que a gordofobia seja criminalizada”

Em entrevista ao Pleno, atriz falou sobre críticas ao Porta dos Fundos e preconceito

Camille Dornelles - 30/06/2020 13h46 | atualizado em 30/06/2020 15h35

Fabiana Karla fala sobre gordofobia, Porta dos Fundos e luta contra preconceito Foto: Reprodução

A atriz Fabiana Karla recentemente se manifestou contra um vídeo do Porta dos Fundos no qual um paciente tinha o diagnóstico de Covid-19 descartado por ser acima do peso e se alimentar mal. Ela declarou que a esquete foi um “desserviço artístico” e não contribui para o combate da gordofobia.

A artista deu uma entrevista ao Pleno.News e falou sobre o que pensa do episódio e também da luta contra a gordofobia. Ela enfatizou que todos os preconceitos trazem um julgamento e um rótulo negativo e isso não é diferente para quem está fora dos padrões de beleza.

Sua defesa da importância de se amar é uma inspiração para muitas pessoas. O processo até chegar nesse pensamento foi difícil?
A dificuldade maior é sempre dissociar a pessoa gorda da falta de saúde e do desleixo. É sempre ter que lidar com o estereótipo de que gordo come muito, em grande quantidade. No meu caso, se eu tiver com pouco tempo e tiver de escolher, eu troco comer por dormir, pois meu ritmo é acelerado e não arrastado, como todo mundo imagina numa pessoa gorda. E eu não tenho preguiça de fazer exercícios, eu faço no meu ritmo. Sinto-me dando um grito de alerta, que estava abafado e onde esse grito não é só meu. Falo por muitas pessoas que não tinham a mesma força e visibilidade que eu tenho. E a minha voz engloba vários movimentos. Acho que tenho vários privilégios e entendo que preciso reparti-los com os outros que não têm a mesma oportunidade.

Como driblar as imposições de padrões de beleza que excluem o gordo?
Acho que fala-se pouco a respeito, as pessoas precisam aprender mais. Há de se educar mais pessoas desde cedo, abrir conversas sobre respeito ao próximo em casa, nas escolas, em redes sociais e levá-las a entender melhor que também existe gordofobia estrutural, assim como racismo estrutural e o machismo estrutural. Este último, inclusive, que vitima mulheres que são espancadas por seus companheiros porque ficaram gordas depois da gestação e são chamadas de desleixadas. Não tenho o interesse de me tornar a “polícia da gordofobia”. Acho que do mesmo jeito que todos estamos buscando entender outros movimentos e estamos dispostos a aprendermos juntos, precisamos primeiro exercitar o básico, que é o respeito e a empatia, e começar a beber da fonte de pessoas que dominam esse movimento como Alexandra Gurgel, Movimento Corpo Livre e Bianca Barroca.

Quais são os problemas que a gordofobia acarreta para quem a sofre?
Acho que a dor bate em cada pessoa de um jeito… Tem coisas que vão incomodar mais a uns do que a outros e vice-versa. Todo preconceito trás um julgamento e ser rotulado de algo negativo é doloroso. Acho que a injustiça dói demais e isso é igual para qualquer tipo de preconceito. Dor é dor!

Precisamos primeiro exercitar o básico, que é o respeito e a empatia

Que tipo de falas e situações você identifica como um preconceito à pessoa gorda?
O que acredita que não deve ser dito?“Nossa, ela tem um rosto lindo”, “está mais magra! Tá linda! Continue!”. Eu acho que tem um episódio bem atual, onde uma médica fala ao vivo para uma advogada em um programa de TV “posso te pedir uma coisa, você me ajuda? Posso Te ajudar a emagrecer?”. Acho que isso é um ótimo exemplo do que não se deve fazer com ninguém! Esses “feedbacks “ são muito sem noção, principalmente, quando a pessoa não pede. Não tenho o interesse de me tornar a “polícia da gordofobia”, até porque eu não preciso ser reativa a tudo, mas quero continuar apoiando outros movimentos, mesmo os que não estão no meu lugar de fala, por empatia, como sempre fiz, e estarei à disposição para estimular o respeito, a discussão e apoiar pessoas gordas a terem mais acessos nos hospitais, em eventos e em companhias aéreas. Os acessos não podem ser negados!Se você for uma preta gorda, o preconceito será inicialmente pela sua aparência gorda para depois chegarem nas outras camadas do preconceito.

Recentemente, você criticou o Porta dos Fundos pelo vídeo Teste de Covid. Como saber o limite do humor?
Você, que trabalha com isso, acredita que deve haver um limite?Estamos em tempos de aprendizado mútuo. Eu fiquei muito feliz com o desfecho, porque era algo que precisava ser discutido no momento. Gordofobia não é piada. Achei a postura do Fábio Porchat, falando em nome do Porta dos Fundos, nobre. E foi humilde em entender a situação e inclusive promover uma live para abrir um discurso necessário. Eu gosto muito deles, mas aquele vídeo precisava ser revisto.

Quais você espera que sejam os próximos passos desta discussão?
Ficamos sempre à parte, esquecidos por esses movimentos (contra preconceitos a minorias) e eles não percebem que todos os preconceitos esbarram primeiro na gordofobia. Baseada em minhas vivências e relatos de amigos próximos, se você for uma preta gorda, o preconceito será inicialmente pela sua aparência gorda para depois chegarem nas outras camadas do preconceito. Acho que agora as pessoas começaram a entender que essa é a pauta da luta também. Espero que um dia a gordofobia seja criminalizada.

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