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Covid-19: Memoriais virtuais homenageiam vítimas

Criadora do Memorial Vinte Vinte falou que o portal pode receber comentários e mensagens entre os familiares mortos pela Covid 19

Camille Dornelles - 28/05/2020 15h56 | atualizado em 31/05/2020 12h32

Amanda Leite criou o Memorial Vinte Vinte Foto: Reprodução

Até agora, a Covid-19 vitimou 25.935 pessoas no Brasil. Não é apenas um número alto, mas um conjunto de 25.935 histórias, 25.935 experiências de vida, 25.935 familiares, 25.935 pessoas amadas e agora 25.935 saudades.

Pensando desta maneira e para ajudar de alguma maneira as famílias que perderam seus queridos, memoriais virtuais surgiram no país para contar um pouco da história de cada uma das vítimas fatais.

O Projeto Inumeráveis, o Memorial das Vítimas do Coronavírus no Brasil, feito pela Rede de Apoio às Famílias de Vítimas Fatais de Covid-19 no Brasil, e o Memorial Vinte Vinte são alguns desses espaços.

Projeto Inumeráveis Memorial apresenta memória das vítimas da Covid-19 Foto: Divulgação

O Pleno.News conversou com a designer Amanda Leite, de São Paulo, criadora do Memorial Vinte Vinte. Ela revelou que a ideia surgiu quando ela suspeitou ter sido infectada pelo novo coronavírus e sentiu o medo de morrer, além de ver perdas na família e no entorno de amigos.

Como surgiu a ideia do Memorial Vinte Vinte?
Para tentar proporcionar homenagens decentes aos falecidos por Covid. Eu fui infectada e pensei na minha mãe. Acho que minha mãe iria gostar de receber mensagens dos meus amigos e parentes, já que não poderia realizar um velório. E isso ajudaria muito ela a receber amor e passar pelas primeiras fases do luto. Foi assim que eu decidi colocar no ar. Eu sou designer, então, fiz um planejamento de sete dias e coloquei o site no ar. Investi na hospedagem e endereço eletrônico, e agora está lá!

Por que acha importante um memorial como o Vinte Vinte?
Temos algumas ideias em mente de como transformar em algo parecido com o Memorial do Holocausto em Jerusalém, que é lindo e chocante. Mas o mundo não deve se esquecer deles. E também não deve se esquecer dessas pessoas agora. Infelizmente, eu acredito, são essas vidas que estão sendo levadas e nos dando a “chance” de construir um novo mundo. Eles são mais do que vítimas. São heróis. Se você analisar historicamente e cientificamente, muitos especialistas falam que estavam esperando um vírus que dizimasse a raça humana. Mas o Covid veio para mostrar que precisamos mudar, urgente, nossas relações, nosso consumo, nossa política, nossas desigualdades, nossa economia… É muito forte isso. Essas pessoas que estão morrendo, o estão no meu lugar, no seu, no de muitas outras pessoas.

Infelizmente, eu acredito, são essas vidas que estão sendo levadas e nos dando a “chance” de construir um novo mundo

Como você acha que essa homenagem deve ser feita?
Agora estou na etapa de captar homenagens. De dar rosto aos números. As pessoas precisam parar de ver números e ver caras, ver famílias, ver histórias. Na mesma semana que eu estava montando o Memorial Vinte Vinte lançaram o Projeto Inumeráveis, mas ele não tem os rostos das pessoas, são nomes e números. Além disso, o MVV tem uma página própria que pode receber comentários e mensagens entre os familiares. Eu quero alcançar e ajudar estas famílias.

Você foi infectada pelo novo coronavírus. Que sintomas sentiu?
Pois bem, dez dias de quarentena eu comecei a ter febre baixa, de cerca de 37,5º. Foram dias seguidos disso, acompanhado de tosse, dor de garganta e sensação de peito cheio. Eu não costumo tomar remédios… Sou bem “natureba” em relação a isso e sempre me trato com plantas e chás. Então comecei um tratamento de uns dias à base do que sempre fiz e funcionava. Dia 3 de abril eu comecei a ter uma dor de cabeça que parecia uma agulha na parte de trás do meu cérebro. Uma dor surreal que eu nunca tinha tido antes na vida. Na semana do dia 3 de abril eu lembro de uma noite que, entre suar, calafrio e dores de cabeça infernais, eu tive a sensação de precisar ir ao hospital. Eu fiquei tentando me concentrar em não precisar ir, porque na minha cabeça, se eu não estivesse com Covid, certamente lá iria pegar.

Você achou que poderia morrer?
Sim. E é uma loucura tudo que passa na nossa cabeça nesse momento…. Eu fiz uma carta. Uma lista de coisas que eu precisava que ela resolvesse caso eu morresse porque não queria que minha mãe tivesse esse trabalho. Uma lista de senhas e logins de redes, bancos, indicação de tudo o que tinha para receber pelos meus trabalhos e de quem cobrar, coisas emprestadas que precisariam ser devolvidas. Avaliei documentos de gavetas, coisas que poderiam ser doadas ou vendidas, amigos que eu gostaria que fossem contatados caso eu falecesse e também amigos a quem minha mãe poderia recorrer para determinadas ajudas. Eu nunca tive depressão na vida, nunca pensei em morrer ou me matar, mas naquele momento me pareceu adequado organizar estas coisas porque via pessoas morrendo da noite para o dia.

Fiz uma carta, uma lista de coisas que eu precisava que ela resolvesse caso eu morresse porque não queria que minha mãe tivesse esse trabalho

Como foi sua recuperação?
Eu falei com um tio que é médico cardiologista e ele me receitou um antibiótico. Eu não tenho convênio e naquele momento nem haviam muitos laboratórios realizando testes. Cerca de 20 mil exames estavam atrasados em São Paulo e a rede pública só faria o exame de imagem pelo SUS se o paciente estivesse com 30% do pulmão comprometido. Mas eu segui as orientações deste meu tio e fui melhorando. E 25 dias depois dos primeiros sintomas eu ainda estava com a febre baixa, a tosse chata e a dor de cabeça constante, mas outros sintomas tinham sumido. Agora eu ainda tenho dores de cabeça e tosse pontuais, mas me sinto fora de perigo.

Como você recebe as mensagens das famílias? Imagino que seja um momento complicado.
Não faço ideia de como começar a alcançar as pessoas. Não quero colocar homenagens que encontro na internet, quero que parta das pessoas próximas à vítima. É um momento particular. A gente precisa tentar se ajudar. Sentir e demonstrar mais amor e empatia.

Como você acredita que será o momento pós-pandemia?
O mundo vai se ajustar. Tudo vai passar, mas muita gente um luto eterno, seja pelos óbitos, pelo fechamento de seus sonhos e negócios, pela falência, etc… Muita dor ainda está por vir. E nossa missão deve ser focada em espalhar amor e empatia a todos.

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