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A importância do perdão no fortalecimento do casamento

Saiba como a escolha em perdoar é uma grande capacidade humana de aprender com o erro e com a dor, além de fortalecer o desenvolvimento pessoal e as relações afetivas

Virgínia Martin - 04/12/2020 10h55 | atualizado em 22/02/2021 12h32

Como perdoar pode ser um fato de fortalecimento para o casamento
Muitos casamentos já foram salvos pelo perdão

Os dados apontam, a realidade aparece e os efeitos acontecem. O número de divórcios cresceu no país. Durante o período de quarentena decretada pela pandemia do novo coronavírus, muitos casais não conseguiram manter o casamento. Só entre os meses de maio e junho deste ano, o registro de pedidos de divórcio teve um aumentou de 18,7%, segundo a Agência Brasil.

Entre estatísticas e crises diversas, o fato é que se manter casado requer mais que compromisso e boa vontade. Pode requerer perdão, atitude que a mentalidade moderna não reforça e nem todo casal tem predisposição de usar. A palavra perdão vem do latim perdonare. Per significa total, completo, e donare quer dizer dar, entregar, doar. Ou seja, trata-se de completa doação. No grego tem o sentido de “deixar ir”.

A palavra perdão vem do latim perdonare. Per significa total, completo, e donare quer dizer dar, entregar, doar
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#2 PERDÃO NO CASAMENTO
Pleno.News - 19/02/2021

Não existe qualquer dúvida de que muitos casamentos já foram salvos pelo perdão. Outros podem ter sofrido duro ataque e não ter resistido, mesmo assim, a ação de perdoar foi manifestada. De qualquer forma, o perdão tem sido o grande elemento transformador de situações e também da saúde emocional e física de tantas pessoas.

Quem expressa uma vitória, acima da dor e da traição, é Nancy Dusilek. Sempre com coragem para contar sua história, ela lembra da caminhada conjugal de 28 anos com o esposo, Darci Dusilek. O casal teve dois filhos e muitos momentos de vitórias, de alegrias, de lutas, sempre juntos. Até que três anos após a celebração das Bodas de Prata, tudo mudou.

O poder do perdão no casamento - Depois de três anos sozinha, Nancy Dusilek perdoou o marido e viveu a reconciliação
Depois de três anos sozinha, Nancy Dusilek perdoou o marido e viveu a reconciliação

– Meu castelo desmoronou devido a um aconselhamento pastoral a um casal em crise. A crise do casal acabou, mas começou a minha, pois fiquei sozinha, ainda com os filhos cursando universidade. Foram três anos de muita dor, mas que num pedido de volta dele, recomeçamos após o perdão. Foi fácil? Não. Foi possível? Sim.

Nancy não esperava que justamente um aconselhamento feito pelo marido, que era pastor, fosse culminar em uma traição. Mas ela, que era uma mulher respeitada no meio cristão, soube dar a volta por cima, prosseguiu com seus talentos e suas funções. E perdoou a pessoa em quem mais confiava, mesmo depois do duro golpe.

Como disse Desmont Tutto, “sem perdão não há futuro”

Escritora de vários livros, líder em variados segmentos da Igreja Batista, Nancy chegou a ser a primeira vice-presidente da Convenção Batista Brasileira. Ela afirma que o perdão é muito importante, pois coloca a pessoa atingida longe de sentimentos como raiva e vingança. Aprendeu que guardar raiva é como tomar veneno e querer que o outro morra.

– Quem morre é a gente mesmo. O outro está aproveitando a vida que decidiu ter, enquanto a gente vai definhando. Então, compartilho essa caminhada de perdão e de reconstrução.

Como disse Desmont Tutto, “sem perdão não há futuro”. A frase foi lembrada por Gilson Bifano, que atua há mais de 30 anos com um trabalho voltado para casais, o ministério Oikos. O perdão, segundo Bifano, que é pastor, age especialmente no casamento, zerando um clima que pode estar muito pesado, seja por causa de uma palavra mal dada, uma omissão, uma falta cometida.

– Eu digo em minhas palestras que existem dois verbos muitos importantes que devemos conjugar todos os dias: amar e perdoar. Amor e perdão são as duas colunas principais que sustentam um casamento ao longo dos anos.

Há mais de 30 anos, Gilson Bifano e esposa atuam em trabalhos voltados para casais

E Nancy não apenas perdoou, como se reconciliou com o marido. Mas ressalta que perdoar e esquecer não existe. Por sua experiência, aprendeu que perdoar é lembrar sem sentir dor, sem sofrer. É cura que acontece por uma decisão e não por um sentimento. Entre todos os entrevistados desta série de reportagens sobre perdão, é unânime a conclusão de que o perdão não vai fazer com que a outra pessoa esteja correta, pois ela pode continuar errando. Torna, porém, o ofendido livre, um preço que pode ser alto, mas que vale a pena.

– Mas a atitude de permitir ser liberta dessa dor depende de cada pessoa. Há muita gente que não perdoa e continua escrava de suas dores. Com isso, as doenças chegam porque o físico grita quando as emoções são abaladas. O nosso cérebro é perfeito – ressalta Nancy.

Todo casamento vai passar por diversas fases até chegar ao equilíbrio e à maturidade. É o velho percurso conhecido das relações humanas. Para que isso aconteça, é preciso estabelecer corretamente as prioridades em um relacionamento a dois. E perdoar é uma das prioridades para que a união seja fortalecida e duradoura.

A amizade conjugal não sobrevive sem perdão

Edvaldo Oliveira é o pastor do projeto Minuto com Deus. Ele lembra o trecho bíblico em Cantares Cantares 8: 6-7 ,“Grave o meu nome no seu coração e no anel que está no seu dedo (…) As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo (…)”. Segundo Edvaldo, as muitas águas citadas por Salomão podem ser entendidas como os problemas, as dificuldades, as adversidades e as tribulações a que todos estão sujeitos quando decidem fazer uma aliança com alguém pelos laços do matrimônio.

– Num momento em que tantos casais optam por se separar diante das crises, aqueles que decidiram permanecer juntos e vencer as crises conjugais passando pelas tempestades, hoje podem celebrar o amor, não um amor que depende da aparência física ou do estado emocional, mas um amor firmado na rocha que é Cristo, que resiste à tudo e a todos, um amor que as muitas águas não vão afogar, mas que se fortalece a cada ano.

O perdão é o único caminho que torna possível a concretização da vida conjugal

Um casamento pode sobreviver às dificuldades financeiras, às doenças, às atribuições e à rotina do cotidiano. Os cônjuges podem até sobreviver à devastação de um adultério. Entretanto, a amizade conjugal não sobrevive sem perdão. E é já no namoro, que os casais precisam aprender a se desculpar. Desculpar o atraso do namorado, o mau-humor da namorada e os entraves que as diferenças de pontos de vista provocam. No casamento, desculpar uma cotovelada ou uma decisão equivocada é relativamente fácil. Mas as coisas não são sempre tão fáceis. Muitas vezes, uma simples desculpa já não basta. É preciso perdoar, é o que enfatiza a psicóloga Elaine Cruz. Mas e quando o perdão é difícil de acontecer?

– Surgem então dois caminhos. O primeiro é quando um casal (ou um dos cônjuges) decide não perdoar. Guarda a mágoa, congela a raiva, torna-se amargo e decide minar o amor que os uniu. O segundo caminho a trilhar é o do perdão – e é este o único que torna possível a concretização da vida conjugal – alerta Elaine.

Psicóloga Elaine Cruz fala sobre os efeitos do perdão no casamento Foto: Reprodução

Perdoar, reforça Elaine, é aprender a conviver com a dor da traição, sem o desejo de punir o cônjuge pelo que ele fez. É recordar sem rancor, a ponto de conseguir amar e “caminhar a segunda milha” ao lado de quem lhe feriu. É renovar os votos de confiança e de afeto trocados no casamento. No perdão há um processo a ser vivenciado até que o ferimento feche e cicatrize.

– E é exatamente isto que muitos não entendem: os que perdoam ainda podem continuar, por meses a fio, a sentir a dor de uma traição ou de um desgosto provocado pelo ofensor. Afinal, fechar uma ferida leva tempo, às vezes anos, e ainda assim a cicatriz que ela deixa pode não doer mais, mas nos faz recordar do que passou.

O TEMPO DO PERDÃO PARA CADA PESSOA

Mesmo quando o perdão é praticado, é necessário esperar pelo tempo de cada um para assimilar os fatos, entender os motivos, conviver com as lembranças e apagar a dor (não a memória dos fatos). Para a psicóloga, perdoar não pode ser uma opção, até porque não há outra saída para quem foi ferido. Ela ainda afirma que quem não perdoa anula a possibilidade de ser livre, vivendo aprisionado às lembranças do que passou.

– Dentro desta ótica, o perdão é o passaporte para a liberdade: quem não perdoa sofre e vivencia a mágoa noite e dia, carregando um fardo que pode transformar-se em doenças do físico e da alma, ou até ter as duas associadas (doenças psicossomáticas).

O que foi ferido, se decidir não submeter-se ao processo de perdão, viverá sob o peso da dor da traição e pagará o preço emocionalmente pelo erro do outro

Em seu livro Sócios, Amigos e Amados (CPAD), Elaine aborda sobre o perdão e menciona um fato importante. Muitas vezes, quem comete o erro se arrepende, busca ajustar-se, procura terapia para conhecer seus motivos e fortalecer-se contra quedas futuras, e até passa a ter uma vida emocional e espiritual mais frutífera do que antes da queda. Isso porque uma das capacidades humanas é aprender com o erro e com a dor, o que torna as pessoas mais conscientes de fraquezas e de tendências. Contudo, lamenta a psicóloga, o que foi ferido, se não decidir perdoar e submeter-se ao processo de perdão, viverá sob o peso da dor da traição e pagará o preço emocionalmente pelo erro do outro.

EX-EXPOSA DE CAIO FÁBIO FALA SOBRE COMO O PERDÃO É FORTALECEDOR NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL

Alda Fernandes é alguém que pode falar profundamente sobre perdão, seja como psicóloga, seja como mulher que vivenciou uma crise conjugal comentada em toda a comunidade cristã do país, que fez com que seu casamento de 23 anos chegasse ao fim. Alda foi casada com Caio Fábio, com quem tem quatro filhos. Em 1999, tendo que recomeçar sua vida depois do divórcio, Alda escolheu ser feliz. Escolheu prosseguir baseada na sua fé, experimentando o que significa perdão.

Hoje, faz questão de focar no fato de que as consequências do perdão fortalecem não apenas uma relação, mas influencia no desenvolvimento pessoal e, consequentemente, promove saúde emocional e relacional.

Alda Fernandes, ex-esposa de Caio Fábio, fala sobre o poder do perdão
“Enquanto o perdão não entrar em nós mesmos, o que vamos usar são apenas fragmentos”, diz Alda

Na opinião de Alda, é necessário levar o tema do perdão para o divã. Se há necessidade de perdão é porque em um determinado momento, ou em vários momentos, houve algo que marcou, machucou, produziu sofrimento em alguém. Eventos que abriram uma rachadura na base do relacionamento, minando amargura, desconfiança, tristeza, indiferença, solidão, angústia, ódio, entre outras emoções capazes de adoecer o corpo e a alma.

– Sendo assim, apenas propor o perdão como elemento restaurador na relação, seria como colocar um esparadrapo sobre uma ferida aberta e infeccionada, sem dela cuidar. O resultado é que o ferimento não vai aparecer, mas estará escondido e possivelmente acabará gangrenando. Muitas pessoas se utilizam do perdão dessa forma, aparentemente tudo parece normal, entretanto, as questões foram apenas tamponadas.

Pessoas que se “perdoaram”, na hora da briga “jogam na cara um do outro” um fato, que supostamente deveria estar “resolvido”

A psicóloga propõe uma série de questionamentos neste processo de divã: Por que preciso perdoar? Quem devo perdoar? Eu posso perdoar, eu tenho esse direito? Eu quero perdoar? Eu desejo fazer essa escolha? O que isso implica na minha vida?

– Enquanto o perdão não entrar em nós mesmos, o que vamos usar são apenas fragmentos. Isso se evidencia quando, pessoas que se “perdoaram”, na hora da briga “jogam na cara um do outro” um fato, que supostamente deveria estar “resolvido”. Mas, não está. Guardam a mágoa e sua condição de vítima como um argumento de defesa ou de acusação em momentos de conflito.

O perdão como fortalecedor na relação é um processo que começa na própria pessoa

A vida de Alda também seguiu com a perspectiva literária. Publicou três trabalhos: Felizes para Sempre e Construções Emocionais (Abbapress), Certas Palavras para Certos Momentos (Publit) e o tão esperado primeiro livro de ficção cristã, Dämmerung, uma história de traição, de culpa, de ódio e de perdão – O que é mais forte: amor ou ódio, pecado ou perdão?, recém-lançado pela GodBooks. Nesta linha de raciocínio, a escritora enfatiza que o esquecimento na prática do perdão se dá através do desapego ao direito de sofrer e de ser vítima.

– Quando nos conscientizamos de que somos capazes de errar, também nos identificamos capazes de perdoar. Sendo assim, o perdão como fortalecedor na relação é um processo que começa na própria pessoa, cujas questões precisam ser tratadas e curadas, para que haja espaço para o amor. O perdão começa com uma decisão, se desenvolve com a conscientização, se manifesta na libertação, mas se concretiza a cada dia com o exercício constante em relação ao outro.

Pastor Lucas não esconde o fato de ter errado com sua esposa e de ter sido fortalecido com o perdão que recebeu- pleno.news
Pastor Lucas não esconde o fato de ter errado com sua esposa e ter sido fortalecido com o perdão que recebeu

QUANDO HÁ CORAGEM DE ASSUMIR QUEDAS E PEDIR PERDÃO
Muitas pessoas amam as canções do famoso cantor gospel Pastor Lucas. Suas músicas já são ouvidas em 86 países. O que muitos não sabem é que todo seu trabalho como compositor e cantor é fruto de perdão. Ele não esconde o fato de ter errado com sua esposa e de ter sido fortalecido com o perdão que recebeu.

– Há 14 anos, eu errei feio com minha esposa, ao ponto de não ser mais digno dela. Porém, ela me deu o presente do perdão. Foi depois disso que me tornei quem sou hoje.

Marcos Lucas Valentin da Silva, conhecido como Pastor Lucas, reafirma que o perdão não é algo fácil e que também não é amnésia. Trata-se de uma escolha em, mesmo apesar do erro, amar e seguir junto e continuar a caminhada como casal. Casado desde 2003, ele diz que é amigo da esposa desde 2000 e começaram a namorar em 2001. Com Thaisa, ele tem dois filhos, Samuel, de 12 anos e Gabriel, de 13 anos.

– Não perdoar alguém pode significar selar dois destinos de uma vez: o seu, de viver na mágoa e da outra pessoa, de viver na culpa. O perdão pode mudar isso – conclui.

OS PASSOS EM DIREÇÃO AO PERDÃO
Com sua experiência de dor e de superação, Nancy Dusilek compartilha algumas atitudes que aprendeu a tomar rumo ao perdão e fortalecimento próprio:

– Chorei muito. O choro faz bem porque a dor é grande. É a dor da alma.

– Eu dizia a mim mesma, dezenas de vezes durante o dia: “eu me recuso a adoecer”.

– Tive amigas e amigos que me apoiaram com palavras ou a simples presença enquanto chorava. Sempre agradeço a Deus por todos eles.

– Depois de curtir o meu luto, fui à luta. Não podia ficar parada chorando pelos cantos, mas precisava dar uma guinada de modo a dar sentido à minha vida, pois os filhos precisavam também de mim.

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