Suicídio: o que fazer diante de uma ameaça

Existem técnicas para ganhar tempo antes que a tragédia se concretize

Pleno.News - 10/09/2019 18h44

Diante de estatísticas dramáticas sobre o índice de suicídio em todo o mundo, a possibilidade de estar diante de alguém que ameaça tirar a própria vida não é pequena. No mundo, a cada 40 segundos alguém comete suicídio. É a informação da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o Ministério da Saúde registra que, entre os anos de 2000 e 2016, as taxas de suicídio tiveram um aumento de 73%.

Infelizmente, existem relatos e vídeos de casos de suicídio que foram concretizados. Em muitas cenas, é visível a presença de pessoas que assistem o drama entre reações diversas. E uma vida se perde, quando poderia ter sido salva. Mas como agir em uma situação de alerta, quando a sociedade se depara com um indivíduo que demonstra que vai cometer suicídio naquele momento? Obviamente, o atendimento por equipes especializadas pode ser um fator determinante para evitar um episódio de suicídio.

Apoiador do Setembro Amarelo, o psicólogo João Geraldo de Mattos Neto enfatiza que a conversa com quem está em crise funciona como uma fala ativa para ganhar tempo. A estratégia de buscar dialogar ajuda no levantamento de informações que podem apontar o grau de risco de suicídio, assim como indicam o histórico pessoal e o perfil de quem está sendo “analisado”.

– Quando alguém põe a própria vida em risco, esse risco pode ser eliminado por algumas técnicas que um profissional preparado possui e que ajuda na observação e intervenção naquela situação de maneira muito mais calculada. Há um risco, mas é um risco calculado.

O psicólogo clínico orienta que quando alguém se depara com uma pessoa que está tentando tirar a própria vida, a primeira coisa a fazer é pedir ajuda. É importante acionar um serviço especializado, seja o Samu, os Bombeiros, a Polícia, o Centro de Valorização da Vida (CVV). E que, antes de tudo, é necessário não colocar a própria vida em risco.

– Não adianta nada tentar ajudar o outro e acabar perdendo duas vidas.

Quem está tentando se matar pode levar outra pessoa junto, observa João Geraldo, que é também capelão e professor do Seminário Presbiteriano de Brasília. Ele chama atenção para o fato de que quem vai pular da ponte pode ter uma ferramenta na mão, como uma faca ou uma arma. Preservação da vida e risco calculado são técnicas iniciais para intervir diretamente contra o suicídio.

Tem sido comum a ocorrência de pessoas se suicidando em shoppings ao pularem de andares altos. Neste tipo de situação, é válido ligar para as centrais de emergência e, imediatamente, intervir. Buscar acalmar e conversar com a pessoa até que a ajuda chegue ao local. Existem outras situações em que a pessoa em crise liga para o CVV e avisa que quer se suicidar.

– Sim, há casos em que alguém liga e diz que está com uma corda no pescoço, por exemplo. E o voluntário treinado vai conversando, obtendo o endereço, ganhando tempo até que a ajuda chegue ao local e salve aquela vida.

João Geraldo traz outra questão sobre o suicídio: a necessidade dos registros. Comunicar a tentativa de suicídio fornece dados para os órgãos de saúde pública. Com isso, facilita a análise e o incremento para produção de políticas públicas ou privadas.

– É importante o registro de ideações suicidas, registro de quem tentou se suicidar e não conseguiu. E ainda aqueles que conseguiram. Isso ajuda a entender as particularidades envolvidas em cada caso. A partir de detalhes, fica mais compreensível pensar sobre a necessidade de fechar a escada dos prédios, construir obstáculos em andares altos, instalar telas. Tudo é praticado com a obtenção de dados do comportamento daquele que tentou agir contra a própria vida.

Se tempo é necessário para que uma vida seja salva em plena tentativa de suicídio, ele também é fundamental na prevenção do suicídio. Em casa, com familiares, o tempo pode fazer diferença quando o objetivo é criar diálogos e vínculos.

– Gastamos tempo já com a pessoa em desespero. Mas esquecemos de gastar tempo antes, quando as pessoas gritam por ajuda por intermédio de outras ações. Vivemos em uma sociedade líquida, desvinculante e desvinculada, repleta de relacionamentos rasos. E qual é a primeira técnica para tirar da mente da pessoa a ideia de agir contra a própria vida? Estabelecer um vínculo.

Estar disponível emocionalmente é uma estratégia de salvação de vidas. É buscar inverter o chamado “capital afetivo” em que há afetividade do comércio e a comercialização dos afetos. Saber direcionar corretamente as emoções para quem está sofrendo pode diminuir comportamentos suicidas. Estratégias que sejam bem orientadas e ações equilibradas podem iniciar um trabalho que conduzam taxas de suicídio a nível zero.

 

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