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Professor condena ‘imposição’ da neutralização de gênero

Pablo Jamilk é doutor em Letras e analisou questão do ponto de vista acadêmico

Gabriela Doria - 02/12/2020 20h46 | atualizado em 04/12/2020 11h02

Professor e doutor em Letras Pablo Jamilk Foto: Divulgação

Referência quando o assunto é o fenômeno da neutralização de gênero – em que se usa palavras sem gênero definido, como “todes” e “alunes” -, o professor Pablo Jamilk foi o convidado da live do Pleno.News desta quarta-feira (2). Doutor em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, Pablo analisou, pelo viés acadêmico, o recente movimento de modificar a gramática portuguesa em uma tentativa de representar pessoas que não se definem nem como do gênero masculino e nem do feminino ou para tornar a gramática “menos machista”.

Segundo o professor, a adoção de termos supostamente neutros na língua portuguesa é fruto do desconhecimento da própria gramática e de incorporação do que ele chamou de “ilusão narrativa”.

– Essa tentativa de convulsão social [neutralização de gênero] só foi adiante por alguns motivos. Primeiro, pelo desconhecimento gramatical. E isso é evidente no Brasil, porque em 1970 surgiu um movimento para desvalorizar o ensino da gramática. Por outro lado, as pessoas sem conhecimento gramatical são facilmente cooptadas por aquilo que a gente chama de ilusão da narrativa. Por exemplo, eu digo: “Tem um homem e uma mulher em uma sala, então eu tenho que dizer ‘boa tarde a todos’ porque o português é machista”. Aí a pessoa que não tem conhecimento gramatical diz: “nossa, isso faz sentido”. Mas fazer sentido não significa que está certo. É a tentativa de reinventar a roda por causa de um desconhecimento gramatical – afirmou.

Pablo também não entra no mérito sobre a questão de como as pessoas identificam o próprio gênero, mas é taxativo ao dizer que isto não pode ser imposto à estrutura do idioma.

– A pessoa pode não se sentir representada pelo seu nome. Perfeito, ela pode mudar de nome. Mas o que ela não pode fazer é pedir a mudança de uma estrutura linguística por uma imposição. Nenhuma mudança na língua vem por imposição, porque a língua não funciona da escrita para a fala, mas ao contrário. Primeiro a comunidade fala, começa a fazer registros linguísticos. A partir de uma quantidade significativa de registros, estudiosos vão ver que são elementos que se notam na estrutura gramatical. A partir daí, coloca-se então como elemento gramatical. Ninguém é pai da língua. Não existe quem possa chegar e dizer que “agora é dessa forma e não de outra” – apontou.

O professor apontou que a neutralização de gênero não é uma mudança orgânica, que acontece por adaptações naturais da língua. Ao contrário, Pablo exemplifica com um “desafio” o quão difícil é usar a neutralização de gênero no cotidiano.

– Não é possível trabalhar com mudanças gramaticais impostas. Não existe codificação pra ensinar isso. Eu deixo um desafio quando falo em neutralização de gênero. Eu gostaria de conversar cinco minutos com uma pessoa que defenda a neutralização de gênero. E que façaisso sem ler, sem decorar texto, apenas utilizando o próprio cérebro para fazer a neutralização de gênero em todas as construções de frases – sugeriu.

Pleno.News Entrevista
Pablo Jamilk
por Pleno.News - 04/12/2020

* Você pode ouvir a entrevista com o professor Pablo Jamilk em podcast no Pleno.News, no Spotify, na Deezer, no Google Podcasts e no Apple Podcasts.

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