Lobista assume pedido de ajuda a Marcola, mas nega ter pago
Roberta Luchsinger diz que não fez repasse a ex-assessor de Lula em troca de favores
Paulo Moura - 28/08/2026 08h49 | atualizado em 28/08/2026 11h51

A lobista Roberta Luchsinger admitiu que procurou o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para tentar obter apoio a uma proposta relacionada ao fornecimento de canabidiol pelo Ministério da Saúde. Ela, porém, nega ter feito qualquer pagamento ao ex-assessor em troca de ajuda.
Roberta é investigada pela Polícia Federal (PF) em três inquéritos que também envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do chefe do Executivo. As apurações buscam esclarecer possíveis relações entre os investigados e empresas interessadas em negócios com órgãos do governo federal. Até o momento, não há indicação de que algum contrato tenha sido efetivamente firmado com o poder público.
Em entrevista por mensagem ao portal G1 nesta quinta-feira (27), Roberta afirmou que pedir apoio a Marcola teria sido um erro de sua parte.
– Ter apoio [era o objetivo das conversas com Marcola]. Talvez erro meu de pedir apoio. Ingenuidade. Bobeira – afirmou.
Segundo a empresária, os valores que chegaram ao ex-chefe de gabinete não tiveram relação com a tentativa de tratar do fornecimento de canabidiol.
– Não fiz pagamentos ao Marcola. Eu ajudei um amigo. Óbvio, eu deveria ter sido atenta ao fato de ser ele chefe de gabinete do presidente. Mas é covardia “linkar” uma coisa na outra. Marcola é meu amigo. Eu sou uma pessoa amiga dos meus amigos. Se eu sei que precisam e posso ajudar, eu ajudo – disse.
PROPOSTA DO CANABIDIOL
As conversas entre Roberta e Marcola passaram a fazer parte de uma investigação da PF sobre uma proposta relacionada à compra de canabidiol pelo Ministério da Saúde. Segundo os investigadores, em maio de 2024, Roberta encaminhou a Marcola, por WhatsApp, uma minuta de Termo de Referência (TR) com parâmetros para a aquisição dos produtos pela pasta.
O documento previa a dispensa de licitação e indicava a empresa World Cannabis, ligada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. A minuta teria sido elaborada por integrantes da equipe de Antônio Carlos. Roberta afirma que sua atuação estava relacionada a um problema regulatório envolvendo pacientes que precisam obter produtos à base de canabidiol.
Segundo ela, a proposta buscava mudar a forma como essas aquisições eram realizadas, com uma estrutura de planejamento e compra centralizada pelo Ministério da Saúde.
– A principal mudança descrita no documento é administrativa e operacional: sair de sucessivas aquisições vinculadas às demandas individuais para uma estrutura de planejamento e aquisição centralizada [pelo Ministério da Saúde] de uma demanda judicial já existente e recorrente – apontou.
Roberta também afirmou que a World Cannabis havia contratado profissionais especializados no setor.
– Antônio [Careca] contratou uma equipe muito competente [na World Cannabis], inclusive pessoas que foram funcionárias da Anvisa e que, após saírem, prestam serviços de consultoria altamente especializada – disse.
RELAÇÃO COM LULINHA
Roberta também negou que tenha feito pagamentos ou oferecido vantagens a Lulinha para facilitar o acesso ao governo. A empresária recebeu R$ 1,5 milhão de Antônio Carlos Camilo Antunes para prospectar negócios junto ao Ministério da Saúde. Ela afirma que, à época, não sabia que o empresário era investigado por suspeitas relacionadas ao desvio de recursos de aposentados e pensionistas.
Em mensagens apreendidas pela PF, Roberta chegou a mencionar que tinha uma sociedade com Lulinha. Questionada sobre o assunto, explicou que os dois são amigos e que já tiveram a intenção de desenvolver negócios juntos.
– Eu e Fábio somos amigos. Muito amigos. Renata, esposa dele, [é] minha melhor amiga. Já tivemos intenção de fazermos coisas juntos fora do âmbito público, porém, sabemos que qualquer coisa que ele faça sempre será malvista. Fábio é meu amigo antes de o pai ser presidente – declarou.
Sobre possíveis vantagens oferecidas ao filho do presidente, como viagens, Roberta disse que as mensagens divulgadas estão “muito fora de contexto”. Ela também afirma que as conversas com Lulinha foram apresentadas de forma fragmentada e que seu advogado, Roberto Podval, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o sigilo das investigações seja retirado para permitir a divulgação integral das mensagens.
INVESTIGAÇÕES
Roberta e Lulinha são investigados em três inquéritos que tramitam no STF. As apurações envolvem suspeitas de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Um dos casos trata justamente da proposta envolvendo o canabidiol e cita Marcola, a World Cannabis e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger.
Outro inquérito investiga possíveis negócios relacionados à Dataprev, estatal responsável pelo processamento de dados da Previdência. A apuração envolve a empresa 3Structure, do setor de tecnologia. O terceiro inquérito trata de possíveis negócios em outros órgãos públicos, mas ainda não foram divulgados detalhes da investigação.
Os dois primeiros inquéritos têm como relator o ministro André Mendonça, enquanto o terceiro está sob relatoria do ministro Flávio Dino.
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