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Paulo Moura - 11/06/2020 09h50 | atualizado em 11/06/2020 10h06

Governador de São Paulo, João Doria Foto: Estadão Conteúdo/Danilo M. Yoshioka

A polêmica compra de respiradores chineses pela gestão João Doria (PSDB), por mais de R$ 500 milhões, teve a participação de um empresário brasileiro investigado pelo Ministério Público do Paraná sob a suspeita de participação em uma fraude no Detran paranaense, estimada em mais de R$ 120 milhões.

Basile George Pantazis foi alvo em março deste ano de uma ordem judicial de busca e apreensão em sua casa em Brasília, na operação batizada de Taxa Alta, e teve os bens bloqueados pela Justiça em maio, segundo o Gaeco do Paraná, grupo especial de combate ao crime organizado.

Outras 15 pessoas foram alvo desse bloqueio, entre elas o irmão do empresário, Alexandre Pantazis. Os irmãos são sócios da Infosolo Informática, empresa responsável pelo registro eletrônico de alienação de veículos no Paraná.

Foi também em março deste ano que a gestão Doria iniciou a negociação para compra de 3.000 respiradores chineses. A entrega dos aparelhos devia, inicialmente, ter sido concluída em maio, o que não ocorreu. A compra também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo.

O atraso da entrega levou à repactuação do acordo para R$ 242 milhões e 1.280 equipamentos, uma adequação do valor adiantado pelo governo paulista em abril à intermediária Hichens Harrison, empresa para qual Pantazis trabalhava. Os equipamentos eram esperados para criação e ampliação de UTIs para enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

De acordo com o jornal Folha de São Paulo, a Hichens Harrison pediu nova repactuação, estendendo a data final de entrega, porque o novo prazo vence na próxima segunda, dia 15, e, segundo a própria empresa, não deve ser cumprido na totalidade. O governo paulista diz ter notificado a empresa sobre os prazos.

Foi por intermédio de uma mensagem de Basile que o governo paulista recebeu a fatura (invoice) com os dados para depósito dos 30% de adiantamento, para que a compra dos respiradores chineses pudesse continuar. “Que Deus nos ajude a todos”, escreveu ele nesse email.

O empresário também foi um dos cobrados pelo governo paulista quando ocorreu o primeiro atraso na entrega. Basile é contatado por meio de dois e-mails, um particular e outro corporativo da Hichens Harrison.

Embora representantes da Hichens Harrison e do governo paulista neguem ligação com Basile no acordo, em depoimento ao Ministério Público nesta semana, o empresário afirmou que foi ele, sim, o responsável pelo elo entre o governo paulista e a Harrison. Disse ainda que vem acompanhando o processo de entrega dos equipamentos.

Basile e Alexandre Pantazis são conhecidos em Brasília como “irmãos gregos” e por sua ligação com a empresa Dismaf, que vendia bolsas para os Correios e acabou investigada no escândalo do mensalão.

Essa mesma empresa também passou a comercializar trilhos de trens para o governo federal, para obras da ferrovia Norte-Sul, cuja qualidade foi questionada pelo Ministério dos Transportes.

Basile foi tesoureiro do PTB nos anos 2000 e era próximo de Gim Argello, então senador do partido pelo DF, preso em 2016, em uma das fases da Lava Jato.

Até a semana passada, dos 1.280 respiradores comprados, a empresa havia entregue, do modelo AX400, 50 equipamentos em 29 de maio e 100 nesta terça (2); 150 deveriam ser entregues “nos próximos dias”, segundo a Hichens Harrison.

Já do modelo SH300, mais caro, foram entregues apenas 133 unidades, em 25 de maio. Pelo acordo firmado, deveriam ter sido entregues 750 equipamentos até 30 de maio e outros 170 esta quarta (10), o que não vai acontecer.

OUTRO LADO
O empresário Basile Pantazis nega ligação com a direção da Infosolo e diz ser “mero cotista” dessa empresa que tem “vários sócios”. O vendedor dos respiradores também afirma que as acusações do Ministério Público do Paraná são falsas.

– O empresário é mero cotista, sem função diretiva ou administrativa em uma empresa de tecnologia acusada pelo governo e pelo Gaeco do Paraná. As falsas acusações têm sido desmontadas, da forma correta, pela via judicial – diz nota.

A gestão Doria diz que as tratativas com a Hichens Harrison ocorreram por intermédio de Fabiano Kempfer, vice-presidente de operações e responsável pelo escritório da empresa no Brasil. Diz, ainda, que Basile Pantazis é “um representante comercial da Hichens no Brasil”.

Questionado pela Folha, o governo paulista não explicou, porém, por que há trocas de mensagens com o empresário, inclusive no momento da cobrança sobre o atraso da entrega dos equipamentos.

Já a Hichens Harrison diz que o acordo foi celebrado diretamente com o governo do Estado “sem intermediação de empresa brasileira”.

– Não há por parte da Hichens Harrison qualquer conhecimento sobre a atuação do senhor Basile Pantazis além da sua colaboração como “commercial advisory” [consultor comercial] com a nossa empresa – diz nota da intermediária.

Questionado por qual motivo Basile tem um e-mail corporativo da empresa, a Hichens Harrison disse ser “uma praxe da companhia em fornecer a todos os colaboradores, mas que nunca foi utilizado.”

*Folhapress

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