Outras varejistas estariam em esquema envolvendo Ultrafarma
Esquema de corrupção envolvia auditor fiscal da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado
Pleno.News - 13/08/2025 07h38 | atualizado em 13/08/2025 12h24

A investigação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) que levou à prisão dirigentes da Ultrafarma e da Fast Shop também envolve outras varejistas suspeitas de financiarem um esquema de corrupção na Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado em troca da liberação de créditos tributários.
O Grupo Nós, dono das lojas de conveniência Oxxo; a Rede 28, de postos de combustíveis; a Kalunga, rede de papelaria e material de escritório; e a distribuidora All Mix também são citadas na investigação.
Em nota, a Fast Shop informou que ainda não teve acesso à investigação e que está colaborando com as autoridades competentes. As demais não haviam se manifestado até a publicação desta matéria.
Apontado como “cabeça” do esquema, o auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, da Diretoria de Fiscalização da Secretaria da Fazenda, teria recebido mais de R$ 1 bilhão em propinas de varejistas para destravar em tempo recorde pedidos milionários de ressarcimento de créditos de ICMS-ST.
Os pagamentos indevidos foram operacionalizados por meio de uma empresa de fachada registrada em nome da mãe do fiscal, uma professora aposentada de 73 anos. O patrimônio declarado dela saltou de R$ 411 mil em 2021 para R$ 2 bilhões em 2024, segundo a investigação.
Artur foi preso nesta terça-feira (12). Na casa dele, em Ribeirão Pires, no ABC paulista, os policiais apreenderam documentos que ainda serão analisados para elucidar o tamanho do suposto esquema. O Ministério Público espera esclarecer se outras empresas se valeram de seus “serviços”.
– Outras várias empresas, grandes empresas do setor varejista, também podem ter se valido do mesmo esquema para conseguir a liberação desses créditos tributários – explica o promotor de Justiça Roberto Bodini, que integra o Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos (Gedec), braço do Ministério Público de São Paulo que combate crimes contra a ordem econômica.
Antes da Operação Ícaro, deflagrada nesta terça, a Justiça de São Paulo já havia autorizado a quebra do sigilo de mensagem do fiscal. Emails trocados pelo auditor colocaram as empresas na mira do Ministério Público. Em dezembro de 2024, por exemplo, Artur recebeu em seu email pessoal a minuta de um acordo de confidencialidade para prestação de serviços para o Grupo Nós.
– Documentos solicitados para prosseguimento nas tratativas de prestação de serviço – dizia a mensagem.
Toda a negociação era feita por meio da empresa cadastrada em nome da mãe de Artur Gomes, a Smart Tax, uma consultoria tributária que, segundo os investigadores, só existe no papel. Os promotores ainda analisam quais empresas, de fato, aderiram ao esquema e quais foram apenas abordadas, sem dar seguimento às propostas.
O auditor aposentado Alberto Toshio Murakami também é investigado por suspeita de participação no esquema. Murakami tinha o certificado digital da Rede 28 instalado em seu computador, o que permitia que ele formalizasse pedidos em nome da empresa junto à Secretaria da Fazenda. O Ministério Público afirma que, mesmo após deixar o cargo, em janeiro deste ano, ele continuou a auxiliar Artur.
Outras duas contadoras são suspeitas de envolvimento no esquema. Fátima Regina Rizzardi e Maria Hermínia de Jesus Santa Clara são descritas como “assistentes nos serviços criminosos”. Elas ajudariam na elaboração dos pedidos de ressarcimento, que envolvem documentos e cálculos complexos.
Em um dos emails trocados com Artur, Maria Hermínia envia um arquivo digital da Kalunga para ressarcimento de créditos de ICMS.
– Artur, será que consegue verificar com o pessoal, se eles estão com algum problema, ou qual o meu erro? Segue abaixo o arquivo anexo. Esse arquivo veio com um log de erro que eu não consigo descobrir o motivo. Já tentei compor, colocar de cabeça pra baixo, misturar, mas não encontro o que o programa da Sefaz [Secretaria da Fazenda] glosou para chegar nessa conclusão – diz.
Os documentos, computadores e celulares apreendidos na Operação Ícaro serão analisados agora em buscas de pistas para aprofundar a investigação.
Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) disse que “está à disposição das autoridades e colaborará com os desdobramentos da investigação do Ministério Público por meio da sua Corregedoria da Fiscalização Tributária (Corfisp)”.
– Enquanto integrante do CIRA-SP – Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos – e diversos grupos especiais de apuração, a Sefaz-SP tem atuado em diversas frentes e operações no combate à sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e ilícitos contra a ordem tributária, em conjunto com os órgãos que deflagraram operação – declarou.
Já o Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo (Sinafresp) disse repudiar “de forma categórica e inegociável qualquer prática de corrupção” e ressaltou que “condutas ilícitas, venham de quem vier, traem a confiança da sociedade, enfraquecem as instituições e não representam, em hipótese alguma, o papel que o serviço público deve desempenhar”.
– Quem se afasta da ética e da legalidade deve responder com todo o rigor da lei, sempre com a garantia do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa – completou.
*AE
Leia também1 Esquema envolvendo Ultrafarma rendeu R$ 1 bilhão a auditor
2 Quem é Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma preso em operação
3 Entenda o esquema envolvendo Ultrafarma, Fast Shop e auditor
4 Dono da rede Ultrafarma é preso em ação do Ministério Público
5 TikTok: Adultos adotam chupeta para aliviar estresse



















