MPF abre inquérito após crítica sobre gospel no Réveillon do Rio
Órgão pretende apurar se houve discriminação religiosa na programação prevista para a virada de ano
Paulo Moura - 30/12/2025 07h49 | atualizado em 30/12/2025 16h39

O Réveillon organizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro entrou no radar do Ministério Público Federal (MPF). O órgão abriu um inquérito civil para apurar se houve discriminação religiosa na programação prevista para a virada de ano, após reclamações de que as atrações da Praia do Leme, na Zona Sul do Rio, estariam concentradas em conteúdos voltados ao público gospel, em prejuízo de outras expressões de fé.
A investigação foi formalizada pelo procurador Jaime Mitropoulos, que decidiu transformar um procedimento preparatório em inquérito e cobrou esclarecimentos do município sobre os critérios adotados para a escolha dos artistas e a destinação de recursos públicos nos eventos de fim de ano.
A discussão ganhou força depois de críticas públicas feitas pelo babalawô Ivanir dos Santos, que, em entrevista à coluna de Ancelmo Gois, do jornal O Globo, reclamou de um possível tratamento desigual às religiões na virada do ano no Rio.
– A diversidade não pode ser apenas um discurso: ela exige práticas concretas de reconhecimento, representação e igualdade no uso do espaço público – disse Ivanir.
No último domingo (28), o prefeito Eduardo Paes (PSD) reagiu às críticas pelas redes sociais. Em tom crítico, ele disse ver preconceito nas reclamações e defendeu a presença de atrações gospel na festa. Segundo ele, o Réveillon de Copacabana é plural e comporta diferentes estilos e manifestações culturais e religiosas.
– É impressionante o nível de preconceito dessa gente. O Réveillon da Praia de Copacabana é de todos! A música gospel também pode ter seu lugar. Assim como o samba, o rock, o piseiro, o frevo, a música baiana, a mpb, a bossa nova…. Cada um que fique no ritmo que mais curte! O povo cristão também tem direito a celebrar! Amém! Axé! Shalom! Namastê – declarou.
O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), também decidiu se manifestar sobre o caso. Em postagem no X nesta segunda-feira (29), o líder cristão afirmou que oferendas e cantores vinculados a religiões de matriz africana têm “protagonismo” nas viradas de ano em praias de todo o Brasil e que as declarações de Ivanir refletem “preconceito religioso”.
– Você está reclamando de um palco gospel na virada do ano na Praia de Copacabana. Vou refrescar sua memória. Toda a orla, não só de Copacabana, mas de todas as praias, são tomadas para oferendas de cultos de matriz africana. Nos palcos principais, cantores vinculados a essas religiões têm o protagonismo. Você está mostrando o seu preconceito religioso. Quer aparecer? Pendura uma jaca ou melancia no pescoço! – disparou Malafaia.
No inquérito, o MPF deu prazo até 21 de janeiro de 2026 para que a prefeitura apresente informações detalhadas. A data coincide com o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Para o mesmo dia, está prevista uma reunião entre representantes do município e entidades como o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-RJ.
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