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Ex-gays existem e movimento registra aumento no Brasil

Miriam Fróes é fundadora do MEGB e como ex-gay conta sua história e diz: "É possível deixar esse caminho"

Virgínia Martin - 17/10/2019 18h26 | atualizado em 17/10/2019 20h17

 

Miriam sofreu abuso sexual, tornou-se gay por 20 anos e voltou para a heterossexualidade, assim como outras pessoas Foto: Arquivo Pessoal

Miriam Fróes ficou mais conhecida após seu encontro com a ministra Damares Alves. A fundadora do Movimento Ex-Gays do Brasil (MEGB) tem 55 anos, nasceu na cidade de Lins, no interior paulista e não esconde que teve longos relacionamentos homossexuais, mas nunca se casou. “Me mantenho solteira e sem filhos”, revela, após uma vida no homossexualismo dos 13 até os 33 anos de idade.

Em agosto deste ano, Miriam buscou por reconhecimento para seu movimento junto ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Encontrou-se com Damares Alves a fim de obter legitimidade ao que chama de direito àqueles que optaram espontaneamente em deixar a orientação homossexual para voltarem a ser héteros. Formada em Teologia, Tecnóloga em Logística e Terapia de Família na visão sistêmica, a ex-gay, como se autodenomina, sabe que tem muitos desafios pela frente. Miriam respeita a opção sexual de cada pessoa, mas deseja que todos os que um dia “saíram do armário” possam ser livres para optarem pela heterossexualidade.

A luta não será fácil, ela reconhece. E aponta que este é um campo delicado, já que percebe perseguição por parte de movimentos LGBTQ+ e dos Conselhos de Psicologia. Miriam respeita que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha excluído a homossexualidade do Código Internacional de Doenças (CID), mas alerta que qualquer pessoa pode se declarar como um ex-gay. E que isso é possível, principalmente, sem qualquer interferência de tratamentos com intenção de reorientar a condição homossexual do indivíduo.

Convidada para falar ao Pleno.News, Miriam destaca que nunca tomou hormônios porque não teve crise com sua identidade de gênero, apenas sentimentos egodistônicos. Hoje também como pastora auxiliar da Igreja Evangélica Manancial Palavra Vida, ela dá ênfase ao trecho bíblico de Provérbios 4:18: “O caminho do Justo é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”.

O que acha que pode ter motivado e desenvolvido sua vida homossexual aos 13 anos?
Na adolescência, sentia necessidade de uma identidade pessoal, que achava não existir em mim, devido ao fato de ter passado por uma infância familiar conturbada. Sofri com a separação de meus pais e com abusos sexuais aos sete anos por um integrante da família. Isso causou em mim muita dor e sentimentos de insegurança, de medo, de culpa e de rejeição. Passei a ter confusões sobre minha sexualidade depois do abuso, passando a ter desejo de pertencimento para me sentir segura e acolhida.

Movimentos como o Moses, na década de 80, foram refutados diante de uma epidemia de pessoas que diziam estar “saindo do armário”. Como avalia o que aconteceu com algumas instituições que lidavam com pessoas que desejavam deixar o comportamento homossexual?

Nessa época, eu ainda estava na vida gay. Só virei às costas para o estilo de vida homossexual em 1995 e somente em 1998 conheci o Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses). Nessa época, eu já procurava por pessoas ou ministérios que pudessem me afirmar que a saída da homossexualidade era possível. Foi então que soube da existência do Moses. E percebi que aqui no Brasil, estávamos todos os ex-gays ainda aprendendo com os modelos dos ex-gays dos EUA e do Canadá. Era eles que nos inspiravam com suas literaturas, estudos e conhecimento mais amplo sobre o assunto que dá melhor compreensão do processo de saída da homossexualidade.

Para você, o que é a polêmica “cura gay”, termo que dizem ter sido criado pela psicóloga Marisa Lobo? Que interpretações corretas e equivocadas têm sido feitas sobre esta pauta?
Existe um termo muito comum dentro das igrejas evangélicas que é citado por líderes que ajudam as pessoas convertidas a entenderem seus processos emocionais e suas restaurações, que é o termo “cura da alma”. Em 1998, ocorreu um encontro de ex-gays em Viçosa (MG), onde variados temas foram abordados, como o de alguém querer sair da homossexualidade. E ali estavam pessoas convertidas ao Evangelho, vindas da homossexualidade. Inclusive, foi quando tive a minha primeira participação nesse tipo de evento. Lembro de que precisamos de proteção policial para deixar o local, pois a militância LGBTQ+ da época se declarou contra o evento e a imprensa no Brasil começou a replicar que estávamos oferecendo cura gay. Quando, na verdade, estávamos apenas reunidos para compreender melhor sobre o assunto por sermos ex-gays. E tudo sob a ótica da Bíblia. Foi um evento promovido por psicólogos que se intitulavam cristãos. E a Marisa Lobo, nessa ocasião, nem havia surgido com seu trabalho acadêmico. O termo cura gay surgiu a partir desse evento. Inclusive, estou escrevendo a história da sexualidade cristã no Brasil, justamente para explicar muitas confusões replicadas pela imprensa erroneamente contra nós.

Em duas décadas como homossexual, você deve ter convivido com muitas pessoas de igual orientação sexual. O que mais observou sobre pessoas, contextos e histórias desta convivência?
Sim, me envolvi com diversas pessoas. Observei que muitas delas traziam consigo as mesmas buscas que eu, assim como os mesmos conflitos. Duas delas foram em busca de resignificar sua identidade, renunciando ao estilo de vida gay e voltando para a sua heterossexualidade. Hoje são mulheres muito bem casadas, com filhos, vivendo ao lado de seus esposos e felizes. Outras continuam na mesma condição de gay até hoje, convictas de que esse é o caminho para elas. Eu segui o caminho da conversão pelo Evangelho em Cristo e me encontro hoje em um processo de plenitude emocional e paz de espírito, desaparecendo completamente qualquer vestígio do passado.

De que forma você decidiu abandonar o homossexualismo e como conseguiu fazer isso?
Não é um caminho fácil, muito menos, existe uma receita pronta. Cada um terá sua caminhada, mas concluo ser possível sim. Eu fui em busca de encontrar Deus na minha necessidade de pertencimento, pois sentia que havia um vazio em minha alma que não era preenchido por ninguém. Nenhuma mulher com as maiores qualificações foi capaz de tapar essa lacuna dentro do meu peito. Nada preenchia meu vazio. Consegui superá-lo quando entreguei minha vida a Cristo, sendo ele o único capaz de suprir minhas carências e meu vazio interno.

Em pleno 2019 com variadas lutas e reivindicações da pauta gay, o que significa criar um Movimento de Ex-Gays no Brasil?
Penso que pelo motivo de nossa caminhada se dar pelo processo da espiritualidade, ficamos muito atrás e fomos perdendo espaço com os avanços da militância LGBTQ+, que sabe reivindicar e fazer suas pautas muito melhor que nós. Eles seguem o caminho da política e com isso avançaram bastante, conquistando praticamente todas as suas reivindicações, com leis que os favorecem muito. Criei o MEGB para poder também, de alguma forma, permitir que outros ex-gays possam se expressar em seu direito de deixar e de permanecer fora do estilo de vida gay.

Em busca de chancela política, Miriam buscou a ministra Damares para reivindicar que ex-gays precisam ser respeitados Foto: Arquivo Pessoal

Você esteve com a ministra Damares Alves. Quais foram os objetivos para este encontro?
Exatamente para obter esta chancela política. Nós, ex-gays, existimos, mas ficamos sem expressão e sem visibilidade. Já tínhamos sofrido desde a resolução 01/99 dos psicólogos, sem poder orientar pessoas egodistônicas, e por fim com a criminalização da homofobia, inserida na lei de crime de racismo, deferida neste ano. Criar o MEGB envolve a intenção de ser uma voz expressiva para essa classe de pessoas que, embora pareça pequena, existe e precisa ser respeitada também em seu direito humano de não desejar mais viver a homossexualidade. Ir ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos foi desejar dizer que nós existimos e desejamos ser respeitados como uma classe de pessoas que merece respeito pelos seus esforços e escolhas de vida.

Como tem percebido a existência de pessoas homossexuais que desejam uma reorientação sexual para a heterossexualidade?
Nesses mais de 20 anos longe da vivência homossexual, diversas pessoas nos procuram para pedir ajuda a partir de nosso depoimento de vida. Durante muito tempo, trabalhei no Projeto Candeia, conhecido no meio de ex-gays e evangélicos como um ministério de ajuda em aconselhamento e estudos da palavra de Deus. É um processo de empatia, testemunho e aconselhamento bíblico.

Tem sido realidade crescente os casos em que casais com relação homoafetiva se mostram insatisfeitos com o sexo do filho e tentam mudar de forma antinatural, como o que aconteceu com o menino Rhuan, que teve o pênis cortado pela mãe. Como pessoa ex-homossexual, como você analisa este tipo de comportamento?
Olha, os casos que chegaram a mim foram, de certa forma, leves. Não chegaram nem perto de uma história como essa com tamanha monstruosidade. Creio que o ódio plantado no coração dessas duas mulheres abrirá precedentes para a delinquência. Por outro lado, sabemos também que existem influências de forças das trevas que levam uma pessoa a cometer atos insanos. Psicologicamente falando, pode também ocorrer caso de uma psicopatia, sendo complexo para ser compreendido. Mas acho que é um conjunto de coisas.

O MEGB foi fundado em agosto deste ano, está nas redes sociais e tem Miriam Fróes como fundadora Foto: Arquivo Pessoal

Pessoas homossexuais são dignas de valor e respeito. Como alguém que não concorda com a escolha pela homossexualidade deve proceder? Ficar calada para não ser punida, seja no meio social ou jurídico, ou expressar sua opinião de forma democrática?
Sim, todos têm o direito de se expressar e de fazer suas escolhas e serem respeitados por isso. Infelizmente, é uma via de duas mãos, porque está incutida na mente das pessoas o conceito de que a homossexualidade é imutável. Mas quando pessoas desejam mudanças em sua conduta de vida, elas buscam novos sentidos de vida para si. Não podemos acusar ninguém de estar errado ou certo, mas temos que respeitar o caminho que cada um decidiu trilhar. Se for certo ou errado, é Deus que vai julgar e não nós. Eu resolvi resignificar minha vida no caminho da espiritualidade. Se estou certa? Eu creio que sim, mas preciso e devo respeitar e ser respeitada.

Já participou de manifestações gays? O que observou entre as pessoas?
No início dos anos 2000, grupos de ex-gays tentaram ir à Parada do Orgulho Gay para evangelizar. Depois percebemos que era um campo muito emblemático, o risco era grande e o alcance muito difícil, pois o foco ali é o festejo e as mentes estão voltadas para o divertimento e não para a reflexão.

O que você mais ganhou e mais perdeu em sua trajetória entre pessoa gay e ex-gay?
Na vida gay, sinto que perdi tempo, pois em minhas buscas por pertencimento, não estudei, não me preparei para a vida. O divertimento era mais importante. Então, quando acordei, vi que o tempo havia passado e aos 33 anos não havia feito nada de significativo por mim mesma. Ganhei experiências e sagacidade no mundo, mas isso não me garantia nada. Hoje, longe das noites de curtição, das boates e dos envolvimentos frenéticos, pude focar nos meus próprios interesses e alinhar meus pensamentos. Fui estudar e me profissionalizar. Adquiri maturidade e um comportamento de vida mais proveitoso para mim e para aqueles ao meu redor. Fiz novos amigos na comunidade cristã, mudando minha rotina desregrada por uma que me desse mais qualidade de vida.

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