Empresa acusa desembargador de ganhar quadriciclo por decisão
Denúncia foi levada ao Conselho Nacional de Justiça
Paulo Moura - 13/05/2026 09h01 | atualizado em 13/05/2026 13h03

Uma denúncia levada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) colocou um desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) no centro de uma controvérsia envolvendo suspeitas de corrupção no Judiciário. O magistrado Francisco Carlos Jorge é acusado, segundo investigação particular apresentada por uma construtora, de ter recebido um quadriciclo avaliado em R$ 62,5 mil em troca de uma decisão judicial.
O caso chega em um momento sensível para a magistratura, em meio ao debate nacional sobre endurecimento das punições aplicadas a juízes. Em março, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o fim da aposentadoria compulsória como sanção máxima para magistrados em casos disciplinares, defendendo que a pena mais severa passe a ser a perda definitiva do cargo e do salário.
Foi nesse contexto que a Construtora Zoller, de Curitiba, protocolou no último dia 28 de abril um Pedido de Providências no CNJ contra o desembargador. A empresa afirma ter reunido elementos que apontariam para uma suposta vantagem indevida ligada a uma decisão proferida por Francisco Jorge em processo envolvendo uma antiga disputa judicial iniciada ainda em 1993 por atraso no aluguel de imóveis.
Uma das donas da empresa, que era fiadora do contrato de aluguel, justificou que um erro da Justiça a levou a não tomar conhecimento das decisões que existiam contra ela até 2020. Em razão disso, ela solicitou que fosse anulada a execução do caso.
A petição levada ao CNJ é assinada pela advogada Maria Tereza Uille, ex-conselheira do órgão e ex-secretária de Justiça do Paraná. Segundo a construtora, o magistrado teria revertido decisões anteriores favoráveis à empresa dentro da 17ª Câmara Cível, alterando o rumo de uma ação relacionada a uma dívida executada judicialmente.De acordo com a versão da Zoller, a mudança ocorreu após a contratação de um novo advogado pela parte adversária, Michel Guerios Netto. A empresa sustenta que, após recursos, Francisco Jorge teria acolhido um quarto embargo de declaração e, com isso, revertido entendimentos anteriores e “ressuscitado” uma cobrança estimada em R$ 14 milhões, mas que a construtora e diz ser de R$ 288,5 mil.
A suspeita central envolve a compra de um quadriciclo poucos dias após a decisão. Segundo a investigação particular anexada ao processo, o advogado recém-contratado pela parte vencedora teria ido a uma loja em Curitiba, em outubro de 2024, para escolher inicialmente um modelo vermelho do veículo. A compra teria sido quitada em dinheiro vivo por um terceiro, com emissão de nota fiscal de R$ 52 mil.
Posteriormente, ainda conforme os documentos apresentados, o filho do desembargador teria comparecido ao estabelecimento para trocar o modelo por outro azul, de valor superior, pagando uma diferença de R$ 10,5 mil. A primeira nota fiscal teria sido cancelada, sendo emitida nova nota no valor final de R$ 62,5 mil, desta vez em nome do filho do magistrado.
Entre as provas apresentadas estão o depoimento do administrador da loja, as notas fiscais e uma imagem publicada em rede social mostrando netos do desembargador utilizando o quadriciclo. A documentação foi anexada tanto em um pedido disciplinar protocolado no TJPR quanto ao procedimento instaurado no CNJ.
Em nota, o CNJ informou que a Corregedoria Nacional de Justiça instaurou procedimento para apurar as supostas irregularidades e solicitou à construtora esclarecimentos adicionais, incluindo um relato cronológico detalhado e documentação complementar.
Já o advogado Michel Guerios Netto negou as acusações, que ele classificou como “caluniosas”. Em nota, o advogado ainda afirmou desconhecer familiares do desembargador e disse que jamais manteve relação profissional, social ou comercial com eles. Também informou que pretende adotar medidas judiciais, inclusive criminais, contra os responsáveis pelas acusações.
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