Em carta aos EUA, governo Lula manifesta ‘indignação’ com tarifa
País prevê "impacto muito negativo em setores importantes de ambas as economias" e pede "diálogo"
Thamirys Andrade - 16/07/2025 16h31 | atualizado em 16/07/2025 17h14

O governo brasileiro enviou uma carta aos Estados Unidos, na qual expressa “indignação” com o anúncio da tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros. No documento divulgado nesta quarta-feira (16), a gestão Lula (PT) avalia que a imposição da taxa impactará negativamente as economias brasileira e estadunidense, pondo em risco a parceria histórica entre os dois países.
– O Governo brasileiro manifesta sua indignação com o anúncio, feito em 9 de julho, da imposição de tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, a partir de 1° de agosto. A imposição das tarifas terá impacto muito negativo em setores importantes de ambas as economias, colocando em risco uma parceria econômica historicamente forte e profunda entre nossos países. Nos dois séculos de relacionamento bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos, o comércio provou ser um dos alicerces mais importantes da cooperação e da prosperidade entre as duas maiores economias das Américas – inicia o documento.
A carta tem a assinatura do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, e do ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira. Ela é endereçada ao representante comercial dos EUA, embaixador Jamieson Greer.
Nela, o governo brasileiro afirma que vem dialogando com o país norte-americano em busca de um aprimoramento do comércio bilateral, e ressalta que o Brasil possui déficit comercial com os EUA, não o contrário.
– Desde antes do anúncio das tarifas recíprocas em 2 de abril de 2025, e de maneira contínua desde então, o Brasil tem dialogado de boa-fé com as autoridades norte-americanas em busca de alternativas para aprimorar o comércio bilateral, apesar de o Brasil acumular com os Estados Unidos grandes déficits comerciais tanto em bens quanto em serviços, que montam, nos últimos 15 anos, a quase 410 bilhões de dólares (R$ 2,3 trilhões), segundo dados do governo dos Estados Unidos. Para fazer avançar essas negociações, o Brasil solicitou, em diversas ocasiões, que os EUA identificassem áreas específicas de preocupação para o governo norte-americano.
O texto prossegue relatando ter apresentado uma minuta confidencial no dia 16 de maio deste ano, com propostas para áreas de negociação e que ainda aguarda a resposta do governo estadunidense.
– Com base nessas considerações e à luz da urgência do tema, o Governo do Brasil reitera seu interesse em receber comentários do governo dos EUA sobre a proposta brasileira. O Brasil permanece pronto para dialogar com as autoridades americanas e negociar uma solução mutuamente aceitável sobre os aspectos comerciais da agenda bilateral, com o objetivo de preservar e aprofundar o relacionamento histórico entre os dois países e mitigar os impactos negativos da elevação de tarifas em nosso comércio bilateral – conclui a carta.

ENTENDA
A tarifa anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, entra em vigor no próximo dia 1° de agosto. Segundo o republicano, um dos motivos para a alta alíquota é um suposto sentimento antiocidental no Brics, bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Para o governo dos EUA, as falas do presidente Lula sobre buscar moedas alternativas ao dólar seriam um sinal dessa rivalidade.
Outros fatores de insatisfação são medidas do Supremo Tribunal Federal (STF) que, segundo os EUA, censuram usuários e redes sociais norte-americanas, além da condução de processos judiciais no Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados. Para o republicano, está em vigor uma “caça às bruxas” contra a direita brasileira, que deve ser encerrada “imediatamente”.
O governo dos EUA também acusou o Brasil de supostas práticas comerciais desleais, com base na Seção 301 da Lei de Comércio do país. Por orientação direta de Trump, o governo dos EUA abriu oficialmente nesta terça-feira (15) uma investigação comercial contra o Brasil. A apuração cita um suposto favorecimento do Pix, a venda de produtos falsificados, a falta de fiscalização anticorrupção, o desmatamento ilegal, e a dificuldade de acesso ao mercado de etanol como exemplos de práticas supostamente desleais que prejudicam empresas norte-americanas.
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