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Falha no sistema de degelo de avião foi um dos fatores da queda que matou 62 pessoas em 2024

Paulo Moura - 08/08/2026 08h42 | atualizado em 13/08/2026 17h31

Avião da Voepass caiu em Vinhedo Foto: EFE/ Isaac Fontana

O presidente e proprietário da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu à Polícia Federal (PF) que tinha conhecimento de uma “cultura de omissão” dentro da companhia no registro de falhas técnicas.

Segundo o empresário, diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) chegaram a alertá-lo pessoalmente, ao longo dos anos, sobre o comportamento de pilotos que evitavam registrar problemas nos diários de bordo para impedir que as aeronaves ficassem fora de operação.

A declaração consta do relatório final da investigação da PF sobre a queda do voo 2283, que matou 62 pessoas em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). Para os investigadores, a omissão de informações sobre falhas de manutenção foi um dos elementos que contribuíram para a tragédia.

O próprio Felício Filho reconheceu que a aeronave envolvida no acidente apresentava problemas. Em depoimento prestado à PF em 4 de agosto de 2026, afirmou que o avião”não deveria estar naquela condição” e que também “não deveria ter sido despachado para aquela rota”.

Na data do acidente, o ATR-72, de matrícula PS-VPB, decolou com falhas conhecidas no sistema de degelo para uma região que tinha previsão de formação de gelo severo. A investigação aponta que a combinação entre o acúmulo de gelo, a inoperância do sistema de degelo e a não execução imediata dos procedimentos de emergência levou à perda de controle da aeronave.

Durante seu depoimento, Felício tentou afastar a responsabilidade da alta administração sobre as decisões tomadas no cotidiano operacional. Segundo ele, a diretoria de segurança operacional, comandada por David Faria, atuava de forma “apartada” das decisões dos gerentes do Centro de Controle Operacional (CCO) e do Centro de Controle de Manutenção (MCC).

A PF, porém, apontou que a estrutura de comando e as informações recebidas pela direção da empresa demonstram que Felício tinha conhecimento sobre problemas que poderiam comprometer a segurança das operações. Ao fim das investigações, a Polícia Federal indiciou Felício Filho e outros 15 profissionais pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, agravado pelas mortes no acidente.

Entre os indiciados estão integrantes das áreas de operações, manutenção e segurança da Voepass, além de mecânicos e despachantes operacionais.

O crime de atentado contra a segraunça do transporte aéreo está previsto no artigo 261 do Código Penal e envolve a exposição de aeronave a perigo ou a criação de obstáculos à navegação aérea. A pena prevista é de dois a cinco anos de prisão. Se houver queda ou destruição da aeronave, passa para quatro a 12 anos. Em caso de morte, a pena pode ser aplicada em dobro.

O acidente ocorreu quando o voo 2283, que transportava 58 passageiros e quatro tripulantes, caiu dentro de um condomínio em Vinhedo. Não houve sobreviventes. Depois da tragédia, a situação operacional da Voepass se deteriorou. Em março de 2025, a Anac suspendeu cautelarmente as operações da companhia após identificar a persistência de falhas estruturais e problemas nos sistemas de gestão.

Em junho do mesmo ano, a agência cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo (COA) e o Certificado de Organização de Manutenção (COM) da empresa. Desde então, a Voepass deixou de operar e passou a enfrentar processos de reestruturação para quitar dívidas, incluindo débitos trabalhistas.

Em nota, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi sua prioridade e negou que tenha deixado de cumprir os protocolos estabelecidos pela Anac. A empresa disse que, ao longo de mais de 30 anos de atuação, manteve procedimentos de segurança, manutenção e treinamento de tripulações de acordo com as normas da agência reguladora.

Segundo a companhia, os pilotos eram treinados para enfrentar condições de formação de gelo e orientados a seguir os procedimentos previstos para cada situação. A Voepass também afirmou que os integrantes da tripulação do voo 2283 eram experientes, tinham mais de 5 mil horas de voo e estavam regularmente habilitados e certificados.

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