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Viviane Senna defende retorno das escolas: “Não agravaria”

Está claro que reabertura das escolas não agrava a pandemia, apontou a presidente do Instituto Ayrton Senna

Pleno.News - 16/09/2020 17h57 | atualizado em 16/09/2020 18h16

Viviane Senna Foto: Ivan Franchet/Instituto Ayrton Senna

Viviane Senna disse que “pesquisas, dados e a experiência em outros países mostram que é seguro reabrir as escolas”. A presidente do Instituto Ayrton Senna, fundado há 25 anos com o propósito de melhorar a educação no Brasil, se tornou um dos mais respeitados nomes do país nesse setor.

Para a empresária e psicóloga, desde que respeitados os protocolos de segurança, os prejuízos não são o de reabrir escolas, mas o de mantê-las fechadas. Em entrevista à reportagem, armada de estudos sobre a pandemia no mundo, Viviane disse que não é à toa que o Brasil esteja entre os últimos países a reabrir escolas, quando outras atividades já foram retomadas.

Leia, abaixo, a entrevista que Viviane concedeu à Folha de S.Paulo.

Em artigo publicado em maio no jornal Folha de S.Paulo, a sra. já falava que o ensino a distância era um paliativo, especialmente em um país com desigualdades, e que deveríamos não perder de vista que o principal era o retorno às aulas presenciais. Como avalia o fechamento tão prolongado das escolas?
O princípio de qualquer decisão em política pública deve ser lastreado em evidência científica e empírica. As pessoas temem três riscos: o da contaminação das crianças, o do óbito e o da chance de transmitirem para adultos. Mas as pesquisas e os dados mostram que esses riscos são pouquíssimo relevantes e não justificam que se mantenha as escolas fechadas.
As crianças são muito pouco suscetíveis à Covid-19. No mundo, são 24% da população, e apenas 2% dos casos de contaminados, dos quais 0,1% foi a óbito. São 37 vezes menos que os adultos. No caso da gripe, as taxas de infecção e óbitos dentre crianças é duas vezes maior do que as da Covid-19. Se não abrimos escola pensando no risco de morte das crianças, deveríamos ter mais medo da gripe.
Por fim, o aspecto da transmissibilidade para os adultos, em razão de as crianças serem assintomáticas, não se confirmou em diversos países, inclusive a partir da volta às aulas. O pico do fechamento das escolas foi em abril, com 192 países, representando 91% ou 1,6 bilhão de alunos. Em setembro, são 46 países, menos de 24% do total.
Nos que reabriram, a volta às aulas teve resultados bastante bons e não impactou a curva da transmissibilidade nem a de óbitos. Houve países, como Alemanha e França, com focos de contaminação em poucas escolas, que logo foram fechadas.
A exceção, que confirma a regra, fica por conta de Israel e da África do Sul. Na África do Sul, os professores entraram em protesto e não cumpriram protocolos. Em Israel, o retorno seria gradual, liberam para todos, e as escolas não tiveram tempo de se preparar.
A chave para dar certo é respeitar protocolos, ter boa comunicação entre professores, escolas e famílias, além de iniciar a abertura quando se estiver no platô de contaminação ou na curva descendente e, claro, manter isolados profissionais e alunos de grupo de risco. Dessa forma, a reabertura das escolas é segura.

E quais são os riscos de manter as escolas fechadas?
Escola não é um equipamento só de aprendizagem, mas faz parte da rede de proteção dos alunos. O fechamento oferece riscos substanciais para as crianças. Não só cognitivos, mas emocionais e de integridade física, moral e psicológica.
Para muitos, a merenda é a única refeição do dia ou, pelo menos, a única balanceada. Sem isso, há comprometimento no curto prazo, inclusive o de abaixar a imunidade para a Covid e outras doenças. No longo prazo, pode comprometer o desenvolvimento físico.
Há prejuízos emocionais, porque escola é responsável por grande parte das interações sociais. Com o isolamento persistente, houve um agravamento de 83% dos problemas psiquiátricos pré-existentes, além de 30% do aumento, em crianças antes saudáveis, de um conjunto de sintomas psíquicos, como depressão e ansiedade. Mais de 30% pretendem desistir da escola.
Houve aumento de abuso e gravidez precoce. No Rio, as denúncias de violência doméstica aumentaram 50%. Nos EUA, 19% das denúncias contra abuso são feitas pelas escolas, que identificam a violência. No Brasil, com o fechamento das escolas, houve redução de 20% do número de denúncias de abuso.
Portanto, retirar a criança da escola é deixá-la sem proteção. E o Brasil está entre os países que estão há mais tempo com as escolas fechadas, há quase 200 dias. Na maioria da Europa, gira em torno de dois meses. Na Dinamarca, 35 dias. A Itália, que deixou fechada por mais tempo, 97. Suécia não fechou escolas.

O Brasil está entre os últimos a reabrir escolas, ao lado de outros países da América Latina?
Exatamente, campeões em educação, que podem se dar ao luxo de manter escola fechadas por tanto tempo, diferentemente de Bélgica, Alemanha…

A sua ironia aponta que é esperado que países que tenham os piores resultados sejam os últimos a reabrir as escolas na pandemia porque não priorizam a educação?
É esse o ponto. Os que voltaram mais rapidamente, antes do comércio ou, no máximo, simultaneamente, são os que têm os melhores desempenhos no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes]. Coincidência né?
A gente pode abrir restaurante, shopping, 25 de Março, bar, salão. É muito representativo do que é prioridade. Quando há uma tragédia, as primeiras a serem salvas são as crianças. É protocolo da humanidade. Com o fechamento das escolas, estamos deixando as crianças por último.

Mas muita gente acredita que manter escola fechada é salvar crianças. E isso, misturado ao ano eleitoral, deu um nó na reabertura.
É esse o nó. É por isso que é preciso mostrar que o risco não é abrir escolas, mas mantê-las fechadas. As crianças estão sofrendo o confinamento prolongado ou já estão nas ruas, nas praias, nos shoppings. E há a fantasia de que representam risco de ampliar a contaminação. Quem estamos protegendo de fato?
Aí é que está a questão eleitoral, a preocupação dos prefeitos candidatos. Está claro na Europa que a abertura das escolas não agrava a pandemia. As crianças não são vilãs. A abertura das escolas não é vilã. O vilão é abrir tudo antes das escolas.

É curioso como, dentre grupos de pais, haja pouca repercussão de conteúdos favoráveis à abertura das escolas, enquanto notícias alarmantes têm destaque. Esta entrevista, por exemplo, tende a circular pouco nesse meio.
Existe agora um movimento de trazer esse outro lado, inclusive na imprensa, que até agora estava alimentando a paranoia. Precisamos trazer dados para contrabater essa falta de informação e esse vírus do medo.

Há prefeituras que já anunciaram o adiamento da volta às aulas para 2021, algo que o prefeito Bruno Covas sinaliza que irá fazer.
É porque se acredita que o problema [de mantê-las fechadas] seja invisível. Mas nem por isso deixa de ser danoso. É muito grave que as pessoas não percebam o custo que isso terá para o país. Quanto mais demorarmos, mais graves e irreparáveis serão os danos. É preciso trazer as evidências dos prejuízos para a mesa dos gestores, dos pais, dos sindicatos dos professores.

Diante da falta de gestão que o governo federal demonstrou nessa área durante a pandemia, a sra. se arrependeu de não ter aceito o convite do presidente Jair Bolsonaro para ser ministra da Educação?
Acho que a arma mais poderosa do mundo não é o cargo, mas a consciência. Se armarmos a consciência de todos, não há o que possa deter. Não podemos ser aconselhados pelo medo e pelo ódio, mas pela ciência e pela consciência ética. Cabe a cada um de nós mudar o que não é aceitável.

*Folhapress/Laura Mattos

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