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Tráfico esvazia Cracolândia, e usuários se espalham por SP

Para polícia, saída do tráfico ocorreu pelas operações feitas desde junho do ano passado e pela inflação

Pleno.News - 23/03/2022 09h33 | atualizado em 23/03/2022 10h15

Cracolândia são paulo
Grupo de viciados em drogas na praça Princesa Isabel, em São Paulo, em 2017 Foto: EFE/Sebastião Moreira

Traficantes e usuários de drogas deixaram a região conhecida como Cracolândia, no bairro da Luz, ao longo do fim de semana passado, e se espalharam por outros pontos do centro de São Paulo. A saída foi ordenada por lideranças do crime organizado na noite de sexta-feira (18), de acordo com a Polícia Civil.

A polícia atribui a saída dos traficantes à atuação de agentes infiltrados e às operações que resultaram em 92 prisões em quase um ano. O aumento do preço das pedras de crack, a “inflação do tráfico”, também desmotivou a atuação do crime organizado na região.

Cerca de um terço dos usuários e traficantes, de acordo com estimativa da própria polícia, migrou para a praça Princesa Isabel, também no centro. Com isso, parte do chamado fluxo no quadrilátero da rua Helvetia, Alamedas Dino Bueno e Cleveland e a praça Júlio Prestes mudou de endereço. A distância entre os dois pontos é de menos de 500 metros.

Além da praça Princesa Isabel, os traficantes estão se instalando no túnel de interligação das avenidas Paulista e Rebouças, na praça Julio Mesquita, no bairro da Santa Ifigênia. A concentração é menor do que na região da Luz.

– Na sexta-feira, uma ordem das lideranças da facção criminosa que explora a Cracolândia determinou a saída dos traficantes da região. Os usuários, que são vítimas e dependentes, acompanharam os traficantes – afirma o delegado Roberto Monteiro, da 1ª Delegacia Seccional Centro.

Na visão da polícia, a saída do tráfico ocorreu pelas prisões feitas desde junho do ano passado, no início da Operação Caronte, ação da Polícia Civil com o apoio da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Foram 92 presos até o momento.

– O crime organizado acabou estrangulado. Mas, não podemos falar no fim da Cracolândia. Foi uma vitória numa batalha – diz Monteiro.

Desde janeiro de 2019 até o dia 28 de fevereiro deste ano, as forças de segurança estaduais informam a apreensão de mais 3,8 toneladas de drogas e 48,3 litros de drogas líquidas na região. No mesmo período, foram apreendidas 18 armas de fogo, 111 facas, 522 munições de diversos calibres, 446 balanças de precisão e mais de R$ 900 mil.

FLUXO
De acordo com o monitoramento da Prefeitura, a região da Cracolândia recebia um fluxo médio de 527 pessoas por dia. Em fevereiro, o número caiu para 397. O esvaziamento rápido, no entanto, surpreendeu até os moradores e comerciantes. Imagens das câmeras de segurança da Prefeitura mostraram moradores ocupando a chamada praça do Cachimbo, nas proximidades da Estação Julio Prestes, pela primeira vez em vários meses. Muitos temem, no entanto, que o fluxo retorne à região nos próximos dias.

– A gente não sente segurança de que eles não vão voltar – diz a comerciante Luciane Araújo, dona de uma mercearia na alameda Glete.

A crise econômica, acentuada pela pandemia, também influenciou no enfraquecimento do tráfico de drogas. Policiais afirmam que o preço da pedra de crack subiu de R$ 10 a R$ 15 para cerca de R$ 30 e R$ 40 em pouco mais de três meses.

ASSISTÊNCIA
Entidades de assistência social alertam que o espalhamento dos usuários de substâncias psicoativas pode dificultar o oferecimento de cuidados básicos de saúde e ações de redução de danos por uso de drogas, como oferecimento de anticoncepcionais para as mulheres. O padre Julio Lancelotti vê com estranheza o esvaziamento.

– É um vazio repentino e não se deve a nenhuma intervenção social do Estado ou da Prefeitura. O fluxo foi pulverizado, desde a praça Princesa Isabel até outros locais do centro – afirmou o líder da Pastoral do Povo de Rua.

*AE

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