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“Não nasci para ser vítima”, crava Jojo em debate sobre Lei Áurea

Evento sobre Abolição da Escravatura abordou disputas de narrativa histórica

Pleno.News - 14/05/2026 14h11 | atualizado em 14/05/2026 14h52

Debate público sobre o 13 de Maio Foto: Cicero Rodrigues/CMRJ

O debate público 13 de Maio: A história que não te contaram, promovido nesta quarta-feira (13) pelo vereador Rafael Satiê (PL), levou à Câmara do Rio de Janeiro a uma discussão frontal sobre abolição, racismo, protagonismo negro e disputa de narrativa histórica. Presidido por Satiê, que comanda a Comissão de Combate ao Racismo da Casa, o encontro reuniu Jojo Todynho, Fernando Holiday, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Bárbara Hannelore, Cláudio Dias Antônio, professor Ralph, Sara Dias, Júlia de Castro, Paula Custódia e Sandra Petito. A abertura contou ainda com apresentação da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros.

A linha central do evento foi a defesa de que o 13 de Maio precisa voltar a ser tratado como uma data de vitória nacional, sem apagar a complexidade do processo abolicionista e sem reduzir o povo negro à condição permanente de vítima.

Ao abrir o debate, Satiê afirmou que a Lei Áurea não foi apenas um ato político, mas “um ato de coragem moral, de consciência cristã e de amor ao próximo”. O vereador também criticou o que chamou de tentativa de esvaziar o papel da princesa Isabel e substituir a memória da abolição por uma narrativa de ressentimento.

– O racismo existe no Brasil. Eu não vou negar isso. Eu sou um homem negro, criado na favela do Jacarezinho, e eu já senti na pele o que é ser olhado de forma diferente por causa da cor da minha pele. Mas também é evidente dizer que o Brasil tem racismo, que é diferente de dizer que o Brasil é um país racista – afirmou Satiê.

Para o vereador, “todo racismo é crime, mas nem todo crime é racismo”. O parlamentar disse ainda que transformar todo conflito em racismo enfraquece o combate real ao preconceito e usa o povo negro como instrumento político.

Jojo Todynho recebe homenagem na Câmara Municipal do Rio Foto: Cicero Rodrigues/CMRJ

JOJO TODYNHO
A fala mais aguardada da noite foi de Jojo Todynho, que recebeu de Satiê uma réplica da Lei Áurea. A apresentadora e cantora falou sobre origem, trabalho, fé e recusa ao papel de vítima.

– Eu não nasci para ser vítima, eu nasci para ser vitoriosa – disse.

Jojo lembrou que nasceu e cresceu em Bangu, trabalhou como faxineira, camelô, babá, cuidadora de idosos e vendeu picolé no trem.

– O que me trouxe até aqui não foi o privilégio, foi o esforço, foi a persistência, foi acreditar que a minha origem não podia limitar o meu destino – afirmou.

O ex-vereador de São Paulo Fernando Holiday defendeu que a abolição brasileira deve ser compreendida como um processo institucional e gradual, sem guerra civil, ao contrário do que ocorreu em outros países. Para ele, a família real teve papel decisivo nesse caminho, ao lado de abolicionistas negros como André Rebouças, Luiz Gama e José do Patrocínio. Holiday também afirmou que o discurso atual sobre raça muitas vezes aprofunda divisões, em vez de promover integração.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado federal e membro da família imperial, também tratou a abolição como um processo histórico construído por diferentes forças políticas e sociais, com a princesa Isabel como aval institucional de um movimento que já vinha das ruas, do Parlamento e de lideranças abolicionistas. O deputado afirmou que a assinatura da Lei Áurea foi um momento de “humanidade” e de união nacional.

Entre os debatedores, Bárbara Hannelore destacou o papel de mulheres e lideranças negras apagadas da memória oficial. Ela afirmou que o Brasil precisa voltar a reconhecer a própria formação sincrética, construída pela mistura entre influências africanas, indígenas e europeias.

O professor de História Ralph reforçou que o 13 de Maio “não nasceu de uma canetada branca” e lembrou a participação de negros, brancos, homens e mulheres no processo abolicionista.

Cláudio Dias Antônio, fundador do movimento Negro de Direita, criticou a leitura que atribui a escravidão exclusivamente ao homem branco e afirmou que a escravidão foi uma “chaga da humanidade”.

– A abolição da escravatura não foi uma derrota, foi uma vitória. O povo negro não precisa de vitimização. Precisa de oportunidade, de educação, de uma família estruturada, de fé e de liberdade – encerrou Satiê.

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