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Capitólio: Metade dos mortos pertencia à mesma família

"A mãe está lá em casa inconsolável", disse o pai de uma das vítimas

Pleno.News - 10/01/2022 11h47 | atualizado em 10/01/2022 12h26

Rocha despencou e atingiu lanchas que estavam atracadas no Lago de Furnas, em Capitólio Foto: EFE/ Departamento De Bomberos Del Estado De Minas Gerais

Dos dez mortos pela queda de rochas dos cânions de Capitólio, em Minas Gerais, no último sábado (8), cinco eram de um mesmo núcleo familiar. Outras duas vítimas eram mãe e filha; ambas com os respectivos namorados. Além deles, as vítimas são dois amigos e um marinheiro. Todos estavam na mesma lancha, que foi diretamente atingida pelo deslocamento das pedras.

Segundo familiares e marinheiros, a embarcação havia alterado a rotina, indo diretamente para o cânion, a pedido dos viajantes, em vez de fazer uma parada turística comum.

Neste domingo (9), em Passos, cidade a 100 km de Capitólio, aqueles que foram ao Instituto Médico-Legal (IML) para reconhecer os corpos e fazer exames de DNA (a fim de ajudar na identificação de algumas vítimas) encontraram rostos conhecidos. Pais, mães, padrastos, filhos, primos, sobrinhos e amigos – quase todos que foram ao IML, de uma forma ou outra, tinham alguma relação entre si.

Entre os cinco mortos da mesma família, o policial militar reformado Sebastião Teixeira, de 68 anos, era casado com Marlene Teixeira. Eles eram pais de Geovany Teixeira da Silva, de 41, e avós de Geovany Gabriel Teixeira da Silva, de 14.

Além deles, Thiago Teixeira, de 30, era sobrinho do casal. Outras duas vítimas, Carmen Pinheiro da Silva, de 41, e Camila da Silva Machado, de 21, eram mãe e filha. Carmen era namorada de Geovany, filho de Sebastião e Marlene. Camila também embarcou na lancha com o namorado: Maycon Douglas Deosti, de 25 anos.

Também morreram no acidente o marinheiro Rodrigo Alves dos Santos, de 40 anos, e os amigos Rodrigo Marinho e Júlio Antunes. O acidente deixou 32 feridos; 23 foram liberados na Santa Casa de Misericórdia de Capitólio.

A unidade da Santa Casa de Passos recebeu duas vítimas do acidente, ainda em quadro estável. Já a Santa Casa de Piumhi atendeu duas delas com fraturas abertas, mas já foram liberadas. Outras quatro vítimas foram levadas para a Santa Casa de São José da Barra e também tiveram alta.

PERDA
Sentado em um banco do IML, com o olhar perdido em um ponto do teto, o pai de Maycon, Jânio Rodrigues, de 49 anos, reunia o que lhe restava de forças para perguntar ao legista se o corpo do filho seria liberado ainda ontem.

O trabalho é lento. A maior parte das vítimas precisa ser reconhecida pelo exame de DNA. O impacto da rocha sobre o barco tornou o trabalho forense um quebra-cabeças.

– Ele era tudo, tudo. A mãe está lá em casa inconsolável – disse o homem que saiu de Sumaré, na região de Campinas, às 5 horas, para fazer “a pior viagem de sua vida”.

Ao seu lado, estava Eleandro Pinheiro da Silva, de 39 anos, irmão de Marlene e tio de Camila, a namorada do filho de Jânio. Com os olhos vermelhos e a cabeça baixa, ele aguardava a coleta de seu sangue, para ajudar no exame de identificação. Tentou falar algo, mas não conseguiu. Apenas balançava a cabeça e esperava.

Do lado de fora, Marileide de Fátima Rodrigues, de 37 anos, era amparada pela família. Ela é mulher do marinheiro Rodrigo, que pilotava a lancha. Há 5 anos o casal havia se mudado de Betim para Capitólio. Agora, ela fará sozinha o caminho de volta.

– Aquilo era a vida dele. Morreu fazendo o que mais amava. Não sei o que dizer – conta.

FORA DE LUGAR
Foi o cunhado dela, Leandro Eduardo, quem tentou, então, explicar o que ouviu de marinheiros e de funcionários do píer de onde partiu a lancha.

– Não era para ele estar naquele barco. Normalmente ele pilotava outra [lancha]. Ele pediu para ir – diz.

Segundo Leandro, a ordem das paradas também foi alterada.

– O primeiro lugar [em] que ele pararia seria a Lagoa Azul, mas um dos turistas pediu para ir para a região dos cânions antes. Ele foi – relata.

Já os familiares tiveram de ir a Passos ontem. Entre eles, a mãe de Giovany Gabriel, de 14 anos, Vanessa Oliveira Ferreira, de 33. A família mora em Serrania, na região de Poços de Caldas. No sábado, o menino deixou a cidade para ir ao passeio com os avós, o pai e a namorada. Agora, nada parecia capaz de segurar a mãe de pé. Ela disse que “ele era um menino doce”.

No início da noite, uma equipe do IML de Belo Horizonte chegou ao local para auxiliar na identificação dos corpos. O trabalho pode se estender por até 30 dias. A dor dessas famílias ainda vai se arrastar.

– Não sei como vai ser. Não sei – dizia a mulher do marinheiro.

*AE

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