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Neutralização de Gênero: Doutor em Letras explica se faz sentido

O assunto repercutiu nos últimos dias, após o colégio Franco-Brasileiro adotar terceiro gênero na gramática

Monique Mello - 19/11/2020 13h00 | atualizado em 19/11/2020 13h56

Colégio Franco-Brasileiro 'inova' e adota gênero neutro, expressão de exemplo: "Querides Alunes".
Colégio Franco-Brasileiro quer adotar gênero neutro Foto: Reprodução

Muito se falou na última semana sobre “Neutralização de Gênero”. Esse movimento se deu após o colégio Franco – Brasileiro, do Rio de Janeiro, emitir um comunicado, informando que irá adotar um terceiro gênero na sua comunicação, este gênero não é masculino, nem feminino, ele é neutro.

Algumas horas após, o assunto já havia repercutido em todo o país, foram feitos posts, vídeos, e matérias, muitos em desaprovação e outros em defesa à atitude do colégio.

Boa parte dessas opiniões não possuem um fundamento acadêmico, e só expressam o pensamento popular. No entanto, o que os profissionais têm a dizer sobre o assunto?

O professor Pablo Jamilk tem mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, e trabalha na área da educação desde os 15 anos. Em entrevista ao Pleno.News, ele explica, do ponto de vista acadêmico, se o gênero neutro faz sentido.

Uma instituição de ensino tem autonomia para alterar a língua pátria?
Não. Uma alteração formal na língua se faz por uma série de estudos sérios e fundamentados por discussões acadêmicas. Vejamos o exemplo do acordo ortográfico de 2009. Na verdade, ele foi proposto em 1986 e, de lá até o ano de sua assinatura, foram duas décadas de intensos debates.

Ressalto que o acordo só foi aprovado, porque se tratava de uma iniciativa para UNIFICAR a grafia do português. Os responsáveis por esse tipo de alteração estão na Comunidade Lusófona (a instituição formada por pesquisadores representantes de todos os países cuja língua oficial é o português).

Uma alteração formal na língua se faz por uma série de estudos sérios e fundamentados por discussões acadêmicas

Uma alteração dessa natureza deveria ser proposta pela comunidade lusófona depois de se ter notado que, em todos os países envolvidos, há registros comuns de fala e escrita dessa pretensa “linguagem neutra”. Uma escola pode decidir que vai usar duas ou três palavras de certa maneira para ganhar algum destaque entre seus pares, mas isso é uma decisão autocrática e perigosa para os estudantes.

Uma escola pode decidir que vai usar duas ou três palavras de certa maneira para ganhar algum destaque entre seus pares, mas isso é uma decisão autocrática

Existe um exemplo prático de que os pronomes masculinos para generalização não são de cunho machista e patriarcal?
Com certeza, existe
. Antes, porém, é preciso entender que essa história de língua machista não passa de uma interpretação mal realizada a respeito das bases da língua.

Vejamos: esse “o” que aparece ao fim das palavras da língua (substantivos, pronomes entre outros) é o que se chama de vogal temática, ou seja, ela ajuda a formar a palavra para sua realização na fala, por exemplo. Quero dizer que, por mais que o senso comum creia o contrário, isso não é um rótulo de gênero; um carimbo que diz “isto é masculino”. Aliás, não faria qualquer sentido, uma vez que palavras como “tribo” e “libido” terminam com “o” e são femininas.

Palavras como “tribo” e “libido” terminam com “o” e são femininas

Há outra confusão grave que se faz nesse tipo de análise, que eu costumo chamar de “linguística freestyle”: gênero biopsicossocial e gênero gramatical são propriedades completamente diferentes. Dizer que uma palavra é masculina ou feminina não significa, em nenhuma instância, dizer que a coisa representada por essa palavra seja identificada com um gênero biopsicossocial, qualquer que seja.

Exemplos práticos de pronomes em sua forma neutra: Maria gostaria de comprar uma nova empresa; só não o faz porque já está investindo em ações.

A palavra “o” é um pronome demonstrativo, que faz referência ao que foi dito anteriormente. Independentemente do fato de eu usar elementos como “Maria”, “empresa” e “nova”, a retomada se fez com um pronome de gênero (gramatical) masculino.

É preciso tomar extremo cuidado para não querer “reinventar a roda”

Por que isso aconteceu? Ao longo da história de nossa língua, o gênero neutro (presente no latim e no grego, que são duas de nossas bases linguísticas) passou a ser representado pelo masculino por uma razão que se chama “princípio da economia linguística”. Isto é, uma lei do menor esforço para realizar adaptações de concordância entre os elementos. Isso quer dizer que o masculino (gênero gramatical) é o herdeiro do gênero neutro das línguas antigas.

Há mais uma informação importante a acrescentar: existem pronomes neutros em português: isto, isso e aquilo já são pronomes neutros. Em relação a todas as questões linguísticas que são estudadas contemporaneamente, é preciso tomar extremo cuidado para não querer “reinventar a roda”.

O professor Pablo Jamilk é Doutor em Letras possui um canal de ensino no YouTube com mais 350 mil inscritos
O professor Pablo Jamilk possui um canal de ensino no YouTube com mais 350 mil inscritos Foto: Divulgação

Alguns usam o exemplo da evolução do “vossa mercê” para “você”, e até mesmo “cê”, para endossar a normalização do uso dos pronomes neutros. Essa comparação é válida?
Não é válida, além de não fazer o menor sentido. O caso do “você” é um exemplo de metaplasmo (uma alteração que se deu a partir da fala ao longo do tempo). O falante não muda sua realização de fala por imposição, não é assim que uma língua funciona. Não há que tentar usar o argumento de variação linguística para tentar validar o emprego do “e” como uma vogal temática de neutralização.

A variação ocorre pelo contato entre diferentes formas e realizações, não por uma suposição, que é o caso de supor que a língua privilegie um gênero biopsicossocial. A argumentação de que a língua evolui para legitimar uma neutralização artificial (impositiva) revela que o argumentador entende pouco de variação e menos ainda de estrutura linguística.

Com a neutralização, o uso de “homem”, enquanto raça humana, teria que ser abolida ou repensada?
A neutralização traria inúmeros problemas.
Por exemplo: se eu empregar “menine” em vez de “menino”, qual artigo terei de empregar para definir o substantivo? Se a pessoa disser “o menine”, será um grande contrassenso, pois neutraliza o substantivo, mas não o artigo. Se disser que se deve criar um novo artigo (“e”, por exemplo) para dizer “e menine”, passaremos por um grave problema de programação da estrutura da nossa língua, uma vez que os artigos são categorias de “inventário fechado”, ou seja, que não são criadas ou alteradas.

Se eu empregar “menine” em vez de “menino”, qual artigo terei de empregar para definir o substantivo?

Pensemos em uma frase completa nessa forma neutra: “e menine é bonite” ou “minhes menines são pequenes e bonites”. Em conversa com dois grandes estudiosos (Aldo Bizzocchi e Rosane Reis), a conclusão foi um desafio: desafiamos qualquer defensor da pretensa “linguagem neutra” a falar durante 5 minutos empregando esse sistema. Falar, não escrever, nem decorar um texto prévio.

O objetivo da neutralização é a inclusão. No entanto, pode acarretar em um efeito ao contrário?
Esse é justamente o maior risco dessa proposta. Na verdade, a proposição de uma forma de linguagem que possa expressar o sentimento de uma comunidade que não se identifica com um ou outro gênero biopsicossocial nos revela uma questão muito mais profunda: até que ponto nossa sociedade está permitindo que essa comunidade tenha autonomia e representatividade?

Penso que essa batalha esteja ocorrendo justamente pelo fato de termos ainda uma conjuntura social em que as pessoas agem de forma discriminatória e preconceituosa. Se a herança do patriarcado não fosse tão forte em nossa sociedade, esse tipo de situação não ocorreria. Parece que meu pensamento não possui coerência, mas eu resumo em uma explicação: não é a língua que carrega este ou aquele preconceito, porque a língua é um instrumento. As pessoas carregam preconceitos e forçam qualquer um que seja diferente daquilo que se considera “normal” a buscar engajamento em qualquer luta por um pouco de ar.

Infelizmente, nesse caso, não é a luta que se deveria lutar. Trata-se de uma série de confusões sociais e linguísticas que criaram um quasímodo para a língua. A consequência disso, em uma sociedade que está cercada por um conservadorismo beligerante, é gerar ainda mais o acirramento entre polos que não devem e nem poderiam ser antagônicos.

Não é a língua que carrega este ou aquele preconceito, porque a língua é um instrumento

O professor Pablo Jamilk possui um canal no YouTube com mais de 350 mil inscritos. O canal reúne videoaulas com dicas sobre verbos, uso da vírgula, modelos de redação entre outros, para alunos que buscam alcançar bons resultados no Enem, em concursos e vestibulares.

 

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